Mentes Extraordinárias

Emílio Russell – Mentes Extraordinárias

Ao Leitor: O Mapa das Mentes Extraordinárias

O que define uma Mente Extraordinária?

Não é um único feito, um golpe de genialidade isolado ou uma conquista singular. Descobrimos, ao longo de nossa jornada editorial, que a verdadeira excepcionalidade reside na coerência entre quatro dimensões distintas, porém inseparáveis: a jornada que molda o caráter, a filosofia que guia a mente, a disciplina que move a ação e o impacto que define o legado.

Para capturar a essência completa de cada coautor presente nesta obra, não nos contentamos com uma biografia linear. Fomos mais fundo. Estruturamos cada capítulo como um mergulho em quatro atos, permitindo ao leitor não apenas conhecer a história, mas dissecar o mecanismo por trás das realizações.

Ao navegar por este livro, você encontrará cada perfil dividido da seguinte forma:

  1. Trajetória
    Aqui, estabelecemos a fundação. Esta seção é a bússola que nos situa, apresentando uma descrição pessoal e profissional que revela as origens, os valores absorvidos e os pontos de virada que forjaram a identidade do indivíduo. É o mapa de onde ele veio e quem ele se tornou.
  2. Pensar
    Esta é a arquitetura da mente. Mergulhamos no mundo interno, explorando os modelos mentais, as crenças inegociáveis e a filosofia que serve como alicerce para todas as decisões. É aqui que entendemos por que eles fazem o que fazem.
  3. Agir
    Se “Pensar” é a estratégia, “Agir” é a execução. Investigamos a ponte entre a ideia e a realidade: os hábitos, a gestão do risco, a tomada de decisão sob pressão e a disciplina diária que transforma visão em movimento concreto.
  4. Realizar
    Este é o resultado, o impacto tangível no mundo. Analisamos as conquistas não como um ponto final, mas como a manifestação de tudo o que veio antes. É a prova viva do alinhamento entre sua trajetória, seu pensamento e suas ações, consolidando o seu legado.

Ao seguir esta estrutura, convidamos você a fazer mais do que admirar; convidamos você a compreender. Bem-vindo às Mentes Extraordinárias.

1. Trajetória: O Compasso das Ondas e o Sedimento do Caráter

O mar ensina o prumo, o prumo sustenta o homem, o homem domina o vento. Para Emílio Russell, a existência jamais foi uma planície estática, mas uma sucessão de ondulações que exigiram, desde a aurora da consciência, uma leitura precisa das correntes invisíveis. Se a biografia de um indivíduo comum se escreve com tinta, a dele foi gravada com sal e sedimentada pela rigidez de uma linhagem que compreendia a honestidade não como um adorno, mas como a própria quilha da alma. Nascido sob o teto de uma casa com quintal vasto no bairro da Madalena, na capital pernambucana, as primeiras memórias não são de brinquedos inertes, mas do movimento orgânico das folhagens e da voz firme de seu pai, Carlos Russell, uma figura cuja presença ocupava o espaço com a autoridade natural de quem conhece a profundidade das águas e a solidez das estruturas.

A educação recebida no recôndito do lar não admitia desvios ou hesitações. Seu pai, engenheiro de renome e pilar do Cabanga Iate Clube de Pernambuco, instaurou um regime de disciplina que beirava o ascetismo, temperado pela integridade que o tempo não corrói. Ao lado dele, sua mãe, Silvia Fernandes Russell, oferecia o contraponto necessário: a paciência que amansa as tempestades domésticas. Foi nesse laboratório de valores contrastantes que o jovem vindo da Madalena, e mais tarde de Parnamirim, aprendeu que a liberdade de navegar depende da obediência às leis da natureza e do caráter. Aos cinco anos, em 1960, ele não apenas entrou em um barco; ele ingressou em uma escola de mundo onde o erro não é um fracasso, mas um ajuste de rota necessário.

Aos oito anos, o presente não foi um objeto de consumo efêmero, mas o veleiro da classe Pinguim que selou seu compromisso com o azul infinito. Enquanto seus pares buscavam o conforto das calçadas, ele buscava o atrito com as águas do Recife, participando de competições que iam do regional ao estudantil nacional. Contudo, foi na classe Lightning, atuando como proeiro de seu pai, que a simbiose entre mestre e aprendiz atingiu o ápice. Foram oito anos consecutivos de vitórias estaduais, três títulos Norte-Nordeste e a projeção internacional no Sul-Americano de 1971, no Mundial do Canadá em 1973 e no Norte-Americano nos Estados Unidos. O sucesso não era uma busca por aplausos, mas a consequência natural de um rigor que não permitia a mediocridade. Ali, entre cabos e velas, ele compreendeu que a vitória é um hábito, e o hábito é a moldura da excelência.

A transição para a vida adulta não significou o abandono do lúdico, mas a profissionalização da responsabilidade. Aos dezesseis anos, já exercia funções administrativas no Cabanga, organizando encontros festivos sob a alcunha de Jovem Marinheiro, revelando uma capacidade de gestão que se expandiria por décadas. Sua vida profissional, iniciada na CELPE em 1977, espelhava a solidez paterna. No departamento de organização e sistemas, ele manipulava dados com a mesma precisão com que ajustava as escotas. O homem que via seu pai gerenciar a construção do edifício sede da companhia, da base ao topo da antena, entendia que nada de duradouro nasce sem o cálculo prévio e a vigilância constante. O trabalho na companhia de eletricidade não era apenas um sustento; era o exercício da ordem que ele transportava para o convés de seus barcos.

O percurso tomou tonalidades mais amplas em 1978, quando a dedicação exclusiva às regatas de oceano transformou-se em vocação e negócio. A fundação da Associação Pernambucana de Veleiros de Oceano, hoje FREVO, foi o ato de quem não apenas habita o mar, mas deseja estruturá-lo para os que virão. Como representante das principais fábricas nacionais e vulto central nos deliveries de embarcações pelo litoral brasileiro, ele acumulou milhas e histórias, mas foi o Jangadeiro IV, adquirido em sociedade com o pai em 1987, que se tornou a extensão física de sua própria identidade. Durante trinta e quatro anos, esse casco cortou ondas que poucos ousaram desafiar, cumprindo missões que transcendiam o prazer esportivo para alcançar a preservação ambiental e o reconhecimento global.

As catorze travessias ao Atol das Rocas constituem um capítulo de densidade quase mística. Antes da fiscalização rigorosa, ele já estava lá, não como um predador, mas como um guardião logístico. Como Comandante do catamarã Trend, transportou autoridades do IBAMA, engenheiros para o plano de manejo e diretores da UNESCO que denominariam o Atol como Patrimônio Natural Mundial. Levou também o brilho mediático de Luciano Huck e a verve de Maria Paula, provando que o mar de Emílio era um território democrático, capaz de acolher a ciência e o entretenimento sob o mesmo céu. Subir e descer o rio Amazonas por oito vezes até Alter do Chão em Santarém, ou alcançar Caiena e o Caribe, não foram atos de aventura irresponsável, mas a execução de uma logística complexa que ele, o administrador, dominava com maestria.

A constância é sua marca indelével. Ao completar todas as trinta e seis edições da Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha, a REFENO, ele atingiu um patamar de resiliência que o isola na história da vela brasileira. Sessenta travessias entre a capital e o arquipélago, cento e trinta e cinco mil milhas navegadas — o equivalente a quase cinco voltas ao globo — não são apenas números estatísticos. São o testemunho de um homem que se recusou a ser vencido pelo tempo ou pela fadiga. Mesmo em seus últimos anos profissionais, supervisionando a construção do centro de lançamento de foguetes em Alcântara pela Camargo Corrêa, ele manteve a mira voltada para o alto, encerrando sua carreira administrativa no exato ponto onde a tecnologia toca o firmamento.

Hoje, ao refletir sobre o itinerário percorrido, as honrarias recebidas — como a recente medalha e o diploma de voluntariado na recuperação de uma embarcação apreendida pela Receita Federal — parecem pequenas diante do que ele considera seu verdadeiro porto seguro. Para ele, o currículo mais valioso não é o que repousa nas prateleiras do Cabanga, mas o que brilha nos olhos de sua filha, Manuella, conhecida como Manu Asfora, e na renovação da esperança representada por seu neto, Kepler, carinhosamente chamado de Plinho. Ao lado de sua noiva, Eliane, ele desfruta da felicidade que nasce da consciência tranquila. Emílio Russell é a prova de que o homem extraordinário não é aquele que evita o risco, mas o que, através da prudência e do trabalho honesto, transforma o vento contrário em força de propulsão para um legado que, como o mar, jamais conhece um fim.

2. Pensar: A Estática do Zelo e a Geometria do Discernimento

Se a movimentação física sobre as águas exige o domínio da técnica, a navegação sobre as incertezas da vida demanda uma arquitetura intelectual que repudie a pressa e santifique a ponderação. Para este navegador dos mares, o intelecto não opera como uma máquina de respostas imediatas, mas como um laboratório de decantação. Ele compreendeu, através de décadas de vigília e silêncio, que a velocidade da decisão é, frequentemente, a armadilha do insensato. Em seu sistema operacional interno, reside uma distinção semântica que ele utiliza como escudo contra o erro: o antagonismo entre a agilidade impensada e a lentidão produtiva. Ao definir-se através do paradoxo do “burro ligeiro” e do “inteligente devagar”, ele estabelece um axioma de sobrevivência: quem decide sob a tirania do impulso, escraviza-se ao arrependimento; quem aguarda o assentamento da poeira, conquista a clareza da direção.

Esta racionalidade maturada não é fruto de um ceticismo árido, mas o subproduto de um modelo mental que poderíamos designar como a Primazia da Digestão Analítica. Diante da pressão ou do conflito, ele não avança; ele recua para o centro de si mesmo. Ele recusa a decisão contaminada pela bile da raiva ou pela névoa da tristeza. O seu pensar exige a temperatura neutra da razão. O problema deve ser dissecado, as variáveis devem ser pesadas e as consequências devem ser simuladas antes que o verbo se torne ato. É a calma que precede a escolha, a análise que evita o erro, o silêncio que fundamenta a verdade. Ao isolar a emoção do julgamento, ele transforma o caos externo em uma estrutura geométrica onde a solução mais eficiente se revela não pelo brilho da novidade, mas pela solidez da lógica.

No entanto, o fulcro dessa estabilidade cognitiva não reside apenas na lógica cartesiana, mas em uma ancoragem metafísica absoluta. A sua bússola interna é magnetizada por um conjunto de leis que precedem qualquer código civil: os mandamentos da fé católica apostólica romana. Para ele, a religiosidade não é um adorno dominical, mas o hardware sobre o qual todos os seus softwares de decisão são instalados. A obediência aos preceitos divinos simplifica a complexidade do mundo. Onde outros se perdem em labirintos éticos, ele encontra linhas retas traçadas pela tradição e pela revelação. A fé em Deus, a devoção a Jesus e o amparo em Maria não são refúgios de passividade, mas diretrizes de conduta. Ele pensa através da cruz; ele decide através da graça; ele vive através da oração. Essa teologia da decisão confere-lhe uma autoridade moral que dispensa o grito, pois sua palavra está lastreada em um contrato eterno de retidão.

Dessa base espiritual emana o seu ritual de manutenção da lucidez, exercido na quietude dos bancos da igreja dos Capuchinhos. Ali, no diálogo solitário com o sagrado, ele opera a limpeza de suas engrenagens mentais. O tempo dedicado à prece não é um desperdício cronológico, mas um investimento em sanidade. É no silêncio da nave que as ideias, que muitas vezes surgem do nada, encontram o seu ordenamento. Ele reconhece que a criatividade possui uma natureza dual: ela é tanto um lampejo espontâneo quanto o resultado de uma reflexão profunda sobre a existência. A sua mente permanece em estado de recepção ativa, captando insights no limiar da consciência e submetendo-os ao crivo da viabilidade. Ele não persegue o impossível por vaidade; ele calcula o possível por responsabilidade.

Para ele, a autoridade não é uma patente comprada, mas um prestígio adquirido através da coerência e do exemplo. Ele pensa o comando como um exercício de carisma e confiança mútua. Um regente de excelência é aquele que desperta no subordinado o desejo de agir corretamente sem a necessidade de coerção. Ele valoriza a lealdade, celebra a transparência e cultiva a harmonia, entendendo que o sucesso coletivo é a única métrica que valida a capacidade individual. A sua mente não busca o poder para o domínio, mas para o fomento de um ambiente onde a retidão seja a regra inegociável.

Ao projetar o mundo em dez anos, a sua análise despe-se do otimismo ingênuo para revestir-se de uma vigilância conservadora. O seu pensar é povoado pelo receio de que as estruturas de liberdade e os valores que sustentaram sua trajetória sejam erodidos por sistemas de pensamento que considera degradantes. Essa preocupação não é voltada para si, mas para o seu neto, Kepler, o Plinho. O seu olhar sobre o futuro é o olhar de um sentinela que teme que a herança de decência que recebeu de seu pai, Carlos, e a paciência que herdou de sua mãe, Silvia, encontrem um terreno hostil. Ele pensa para proteger a descendência; ele vigia para garantir que a luz da verdade não se apague na próxima estação.

A realização final de sua mente encontra-se na definição de sucesso como um estado de paz absoluta. Para ele, o triunfo não é o acúmulo de ativos, mas a capacidade de habitar a própria consciência sem aborrecimentos. Ser feliz é estar de bem com a vida; estar de bem com a vida é não ter dívidas com a moral. O sucesso é o prêmio da integridade; a felicidade é o descanso da alma justa; a paz é o veredito de quem nada tem a esconder. Ele almeja a autonomia do fôlego e a dignidade do fim, desejando que o seu testamento intelectual seja resumido na simplicidade de ter sido uma boa pessoa. O pensamento de Emílio Russell é, em última análise, um elogio à simplicidade sofisticada: ele pensa com o rigor de um administrador, sente com a profundidade de um cristão e decide com a prudência de quem sabe que os melhores ventos só sopram para quem conhece, com exatidão, a força do próprio leme.

3. Agir: A Execução da Vontade e a Logística do Imponderável

Se a arquitetura mental de Emílio Russell exige a maturação lenta das ideias e a ancoragem absoluta na fé, a sua ação é o momento em que a abstração se converte em movimento cinético. A execução, para este navegador, não é um impulso errático, mas a tradução física de uma estratégia que repudia a hesitação. Ele compreendeu, na solidão das grandes travessias, que o mar não perdoa a dúvida, e que a eficácia do comando reside no equilíbrio entre a mão firme no leme e a sensibilidade para ouvir o que o vento sussurra. O seu agir é a materialização de um princípio inegociável: a autoridade não se impõe pelo grito, mas pela conduta; o respeito não se exige pela patente, mas pelo exemplo; a vitória não se alcança pela sorte, mas pelo cálculo rigoroso.

A transição entre o gabinete de reflexão e a arena da prática manifesta-se através de uma metodologia de prontidão estruturada. Emílio não acredita no improviso como método, mas como uma contingência que exige preparo prévio. Sua vida administrativa, forjada na CELPE e culminada na Camargo Corrêa, ensinou-lhe que a logística é a arte de tornar o desejo possível. 

Essa capacidade executiva foi submetida ao seu teste de estresse mais agudo em um episódio recente que desafiaria a sanidade de navegadores menos experientes. Ao aceitar o desafio voluntário de recuperar um barco apreendido pela Receita Federal, Emílio viu-se diante do que muitos considerariam um abismo operacional. A embarcação era uma incógnita: sem baterias, sem motor, desprovida de qualquer equipamento eletrônico funcional. Somava-se a isso a pressão de um cenário de guerra, com agentes armados a bordo e vigilância aérea constante por drones, sob o temor de sabotagem por parte do antigo proprietário. Ali, o seu agir foi pautado pela confiança no hardware de sua própria experiência. Ele não buscou a tecnologia que faltava; buscou o conhecimento que possuía. O sucesso daquela missão, junto com seu amigo Paulo Moura, não foi um golpe de sorte, mas a execução da calma: ele analisou o risco, aceitou o fardo e entregou a embarcação no porto de destino, transformando o “quase impossível” em um diploma de competência reconhecido publicamente.

No entanto, a sua trajetória de ação também é povoada por momentos em que a ousadia juvenil testou os limites da prudência. A histórica travessia para Fernando de Noronha, transportando quase uma tonelada de cerveja em um pequeno barco a vela para suprir as demandas de um carnaval, serve como a sua parábola pessoal sobre os riscos do excesso. O que hoje ele narra com a sobriedade do tempo, na época foi um ato de audácia logística que flertou com o perigo. A carga era pesada, o barco era frágil, a responsabilidade era absoluta. O sucesso daquela empreitada validou sua capacidade de entrega, mas, paradoxalmente, foi o evento que selou sua conversão à prudência definitiva. Ele agiu com bravura para, décadas depois, decidir não repetir a imprudência. O erro que não ocorreu tornou-se a lição que o protege: hoje, ele prefere a segurança da rota mapeada ao brilho da aposta incerta.

Essa mesma disciplina operacional permitiu que ele se tornasse um embaixador informal dos mares brasileiros. Ao organizar o recebimento de veleiros europeus em Rallyes internacionais e representar comercialmente as grandes fábricas brasileiras, Emílio não apenas vendia embarcações; ele vendia a confiança na navegação. Ele profissionalizou a paixão, transformando a entrega de barcos pelo litoral — o delivery náutico — em um exercício de precisão e segurança. Onde outros viam apenas a distância entre Santos e Santarém, ele enxergava janelas de vento, correntes favoráveis e a necessidade de manter o cronômetro alinhado à satisfação do cliente. Sua ação no mercado de charter e passeios para Fernando de Noronha foi pioneira, desbravando o setor quando o arquipélago ainda era um destino de acesso restrito, provando que a visão de negócio só frutifica quando acompanhada pela coragem de dar o primeiro passo em águas desconhecidas.

A liderança de Emílio, exercida por mais de uma década no Conselho do Cabanga, é pautada pela pedagogia da escuta. Ele rejeita a figura do regente que aponta o caminho sem percorrê-lo. Em sua filosofia operacional, o exemplo é a única linguagem que a equipe realmente compreende. Ele formou bons velejadores porque foi o primeiro a encarar as milhas; ele inspirou confiança porque manteve a palavra empenhada em cada contrato e em cada regata. A sua satisfação não reside no comando em si, mas na celebração do sucesso alheio — ver o aluno superar o mestre é a sua maior recompensa. Ele entende que para o grupo prosperar, as almas que o compõem precisam, primeiro, reconhecer no líder a retidão de caráter.

Hoje, o seu agir é impulsionado por uma meta que transcende a glória náutica: a preservação da própria autonomia. Ao manter a disciplina da oração diária e o vigor de quem recusa o sedentarismo, ele trabalha para que a dependência jamais seja sua morada. Ele deseja viver com saúde para ir ao banheiro sozinho; deseja saúde para acompanhar o crescimento de Kepler; deseja saúde para honrar o amor de sua filha, Manuella, e de sua noiva, Eliane. O seu cotidiano é uma operação logística contra o tempo, onde cada prece e cada caminhada são investimentos na perenidade. Emílio Russell age como quem semeia um campo vasto, sabendo que cada milha navegada e cada decisão tomada com honestidade são partes de um todo maior que visa a paz de espírito. O ciclo da eficiência está em pleno movimento, transformando a experiência de setenta anos no combustível necessário para os próximos e mais extraordinários desafios que a vida, soberana e imprevisível, ainda ousará apresentar.

4. Realizar: A Perenidade do Exemplo e o Horizonte da Quietude

A culminância de uma existência devotada ao movimento das marés não reside no somatório de troféus metálicos ou na frieza das estatísticas acumuladas, mas na solidez de uma consciência que encontrou o seu porto na integridade. Ao analisarmos a síntese deste percurso, percebemos que a disciplina austera herdada de seu pai, Carlos, e a paciência benevolente de sua mãe, Silvia, fundiram-se para criar uma metodologia de vida que transformou a paixão náutica em uma obra de utilidade pública. O êxito deste navegador não é um evento fortuito; é o resultado alquímico de um pensar ponderado que se converteu em um agir prudente, resultando em uma realização que transcende o convés para habitar a memória coletiva da vela brasileira. A sua assinatura nas águas de Pernambuco é a prova de que a constância é o material mais resistente de que um legado pode ser composto.

A herança duradoura que este veterano estabelece no Cabanga Iate Clube e na história da Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha é definida pela absoluta fidelidade ao compromisso assumido. Ao participar de todas as trinta e seis edições da REFENO, ele não apenas acumulou sessenta travessias entre o continente e o arquipélago; ele instituiu um padrão de resiliência que serve de bússola para as novas gerações. Sua contribuição para o esporte não se limitou à performance competitiva, mas expandiu-se na estruturação da flotilha de oceano e na representação comercial que profissionalizou o mercado náutico regional. Este espírito de doação, traduzido em serviços que o mar e os céus reconhecem, rendeu-lhe as honrarias de Amigo da Marinha e de Membro Honorário da Força Aérea Brasileira. Se a audácia de organizar um Rallye na Ilha de Marajó conferiu-lhe o título de cidadão de Soure, sua recente parceria com a Receita Federal reafirma que o compromisso social é uma constante que não busca o aplauso, mas a utilidade. Ele provou que o lazer pode ser um exercício de rigor administrativo, e que a paixão, quando disciplinada, torna-se uma ferramenta de desenvolvimento social. O sucesso, sob sua ótica, é medido pela capacidade de manter o leme firme ao longo de cento e trinta e cinco mil milhas, garantindo que a palavra empenhada em 1960 permaneça válida no presente.

Contudo, para este homem que viu o mundo do topo de mastros e através de janelas de aviões, o monumento mais sagrado não é feito de fibra de vidro ou aço. O seu legado primário, o projeto que recebe a sua gratidão mais profunda e o seu zelo mais ardente, atende pelos nomes de sua linhagem. A sua realização máxima é o orgulho que transborda ao observar a trajetória de sua filha, Manuella, e a renovação da vida manifestada em seu neto, Plinho. Ele compreendeu que o currículo mais nobre não é o que se apresenta aos diretores, mas o que se entrega aos herdeiros. Ver a filha como uma guerreira de sucesso e o neto como o futuro que desabrocha é a validação definitiva de que as lições de disciplina e honestidade de seu pai, Carlos, frutificaram. 

Aos setenta anos, o navegador não ambiciona novas conquistas territoriais ou a glória de odisseias impossíveis; a sua meta é a dignidade da independência física e espiritual. Ele trabalha, reza e caminha para que a saúde seja sua companheira até o último sopro, desejando viver com o vigor necessário para não depender de auxílios externos. Ao lado de sua noiva, Eliane, ele planeja habitar o tempo com a mesma elegância com que habitou o mar: com calma, com companhia e com a clareza de quem sabe que a felicidade é a ausência de dívidas com a própria moral. O amanhã não é uma ameaça, mas um convite para continuar sendo uma boa pessoa, um título que ele preza acima de qualquer comodoria ou presidência.

A força desta realização reside na harmonia de uma tríade inegociável: a fé católica, a retidão do caráter e o afeto familiar. Ele não mede o êxito pelo acúmulo de imóveis ou pelo brilho da fama efêmera, mas pela tranquilidade de deitar a cabeça no travesseiro e enfrentar o tribunal da própria consciência sem sobressaltos. A sua vida é o triunfo da simplicidade sobre o ego, da paciência sobre a pressa e da verdade sobre o artifício. Ele é o homem que ensinou os alunos a lerem o vento, mas que, no recôndito da alma, aprendeu que a lição mais difícil é aprender a ler a si mesmo. A sua existência extraordinária é a materialização de sua prece diária: um pedido de sabedoria para agir corretamente e de gratidão por tudo o que já foi conquistado nas correntes do tempo.

Ao encerrarmos este perfil biográfico, retornamos à imagem do menino de cinco anos que, sob o olhar de seu pai, Carlos, sentiu pela primeira vez a força de uma vela enfunada. O percurso que se seguiu foi uma sucessão de bons ventos, não porque a sorte foi constante, mas porque a mão no leme foi precisa e a alma permaneceu ancorada em valores perenes. A história deste velejador ensina que a mente extraordinária é aquela que consegue transformar o suor do trabalho na doçura do descanso merecido. Ele habita agora a plenitude de quem descobriu que o destino final não é uma coordenada no mapa, mas a paz de espírito de quem fez o bem sem olhar a quem. O seu livro, intitulado por ele como “Bons Ventos Sempre”, permanece aberto, com as páginas sopradas pela brisa da honestidade e iluminadas pela luz de uma linhagem que, como o oceano que ele tanto ama, permanece vasta, profunda e eterna.

Keplinho Lafayette
Editor Executivo do Grupo Paradigma, empreende em novas ideias e novos horizontes estratégicos e operacionais através da congruência entre criatividade e imaginação.

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