Expressão

Graziela Luna: Dedicação e Humanização na Neuroftalmologia

Era uma segunda-feira como qualquer outra na Visio, com cinco pacientes em sala de espera e o telefone não parando. Nesse ínterim, uma mãe do interior da Paraíba apareceu no balcão sem hora marcada. A filha piorara, de modo que outra médica a encaminhara direto para lá. As secretárias barraram a entrada, como de costume. Logo depois, a mãe foi até a porta do consultório. “Eu atendo”, Graziela Luna Mafra disse, sabendo que não havia onde encaixá-la, que não haveria almoço, que o turno se estenderia além das cinco da tarde. Em suma, ela afirmou: “Eu não consigo dizer não.” Essa cena, com variações, se repete toda semana na agenda mais disputada da neuroftalmologia pernambucana, onde consultas comuns se fecham com dois meses de antecedência e as urgências chegam pela porta de trás.

Origens e a Promessa da Infância

A neuroftalmologista que chegou a esse ponto partiu de uma escolha feita aos cinco anos, antes mesmo de entender o peso que a palavra medicina carrega. Graziela tinha essa idade quando perdeu a tia Luísa Cristina Maia, a “tia UU” que a embalava todos os dias com uma cantiga de ninar e que, no último ano do curso de medicina, descobriu uma leucemia durante a própria aula de hematologia. Luísa morreu aos 22 anos. Na terceira sessão de quimioterapia, ocorreu uma hemorragia maciça e fulminante. A menina que a enterrou guardou uma promessa: “Eu vou terminar o que ela não terminou.” Por fim, essa frase silenciosa definiu o rumo de tudo.

Formação Rigorosa e Construção de Carreira

Graziela passou no vestibular de medicina de primeira tentativa, assim como o irmão Mauro José Catunda Luna. Naquela época, tratava-se de uma raridade; dois irmãos na mesma situação representavam uma raridade dobrada. Por trás dessa dupla aprovação estavam os pais, Tomaz José Catunda Luna e Graziela Maia e Silva Luna. Em primeiro lugar, foi a educação que proporcionaram aos dois filhos que abriu esse caminho.

A residência médica em oftalmologia veio pela Fundação Altino Ventura, sob a coordenação dos doutores Marcelo Ventura e Ronald Cavalganti. Posteriormente, vieram os fellows: retina clínica ainda na Fundação, além de neuroftalmologia e ultrassonografia ocular em São Paulo. Ela voltou ao Recife ao lado de Jorge Mafra, com quem casara no fim da residência médica e que a acompanhou desde o primeiro dia de carreira, grávida do filho, que hoje tem 18 anos. Foram 19 anos construindo, com paciência de quem sabe o que está em jogo, uma das subespecialidades mais exigentes da área médica.

A Ruptura Calculada e a Fundação da Visio

O passo seguinte consistiu em uma ruptura calculada. Após anos como coordenadora dentro da Fundação Altino Ventura, a médica saiu junto a um grupo de seis colegas para fundar a própria clínica. Ela reconhece a ambiguidade da saída: os dois mentores que a formaram sentiram, em alguma medida, o abandono. “Eu sou muito grata a Marcelo Ventura e a Ronald Cavalcanti. Eles me abriram oportunidade. Eu soube pegar a oportunidade”, ela distingue, sem defensiva.

A Visio, onde hoje concentra o grosso do atendimento, recebe pacientes de convênio. O Ícone da Visão, espaço paralelo de uma manhã por semana, absorve os casos particulares urgentes quando a fila fecha. Às sete da manhã, a neuroftalmologista já está lá. Às cinco da tarde, está encerrando laudos. Entre esses dois horários, dois shakes de proteína com banana substituem o almoço. O marido reclama. Consequentemente, ela ouve, desconecta pouco e responde ao próximo WhatsApp.

A Prática Clínica e a Herança Familiar

A neuroftalmologia carrega diagnósticos pesados: nervos atrofiados, doenças sem cura, visão que piora sem retorno. “Eu nunca minto, mesmo que seja uma notícia difícil e dolorosa.” A habilidade de dizer o que precisa ser dito, no momento certo, com o paciente preparado para absorver, é o que a médica chama de acolhimento.

Não se trata apenas de técnica. Pelo contrário, é o reflexo de quem cresceu ouvindo histórias de mulheres que não se deixaram abater. A avó materna, Maria Norma Maia, aprendeu a dirigir trator sozinha, criou nove filhos após perder a fazenda da família de um dia para o outro e se reinventou como corretora de imóveis no Recife dos anos 1970. Graziela a visitava toda segunda-feira, já adulta, já casada, já com filhos, para ouvir essas histórias.

O Propósito que Sustenta o Ritmo

O que sustenta o ritmo de sete da manhã às cinco da tarde, sem pausa real, com encaixe de urgência à tarde e WhatsApp à noite, é algo que a própria médica define sem hesitar. “O que paga a gente é a gratidão.” Ouvir “ninguém nunca me explicou assim, agora eu entendi” vale o shake no lugar do feijão. Graziela Luna aprendeu com um preceptor, nos primeiros anos de carreira, que a culpa pela doença do paciente não é do médico. Demorou para acreditar nisso. Contudo, o que ela nunca precisou aprender é que estar presente, honrar o horário das sete, abrir o encaixe para quem veio do interior sem marcar: tudo isso é o jeito que ela conhece de terminar o que a tia Luísa não pôde terminar.

Keplinho Lafayette
Editor Executivo do Grupo Paradigma, empreende em novas ideias e novos horizontes estratégicos e operacionais através da congruência entre criatividade e imaginação.

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