Existe uma sabedoria ancestral na busca pela origem das coisas. Em outras palavras, um entendimento de que, para compreender o rio, é preciso conhecer a nascente. Para o presidente do Conselho Municipal do Turismo de Paulista (PE), Carlos Alberto Bezerra de Queiroz Filho, essa não é apenas uma metáfora, mas, de fato, a própria bússola de sua jornada. Em sua matéria no Case de Sucesso da segunda edição dessa revista, ele já havia compartilhado um lema, parafraseando o compositor Lenine: “Quer um caminho de rocha para você aprender alguma coisa? Vai na fonte.” Hoje, ele aprofunda o que significa, de fato, beber dessa água.
Uma Trajetória Incomum: Da Tecnologia ao Direito
A sua trajetória profissional, como ele mesmo descreve, foi um “acidente”. Vindo da área de tecnologia, onde atuou como gerente de informática, inclusive no escritório ADC Advogados, o universo jurídico surgiu por influência e admiração pela esposa, a Promotora de Justiça Andréa Karla Reinaldo de Souza Queiroz. Assim, já com cabelos brancos e a maturidade que a experiência prévia lhe conferia, ele se aventurou na faculdade de Direito. Com efeito, desde o segundo ano, atuava com uma autoridade natural que dispensava credenciais formais. “Muitas vezes as pessoas nem me pediam a carteira da OAB”, recorda. Isso evidencia como a experiência de vida pode conferir presença e credibilidade antes mesmo da titulação oficial.
A Importância das Fontes: Bebendo do Conhecimento de Gigantes
Foi nesse percurso que ele encontrou e se alimentou de suas fontes primordiais. “Você só sabe quem são as pessoas se você souber qual foi a fonte que elas beberam”, afirma com convicção. De fato, as suas foram límpidas e potentes. No direito empresarial, por exemplo, bebeu da excelência da ADC Advogados, aprendendo com gigantes como José Henrique, Antônio Carlos Monteiro, Renato Rocha e Miécio Uchôa Cavalcanti. Já no direito penal, a sua fonte foi Bóris Trindade, a quem se refere como inigualável. “Eu consegui unir o direito empresarial de excelência da ADC com a advocacia penal de excelência de Bóris Trindade. Essa masterização, como fala Murilo Gun, eu acho que me deu o que eu sou hoje.”
Compliance com Propósito: Gerar Valor, Não Custo
Essa fusão de conhecimentos de alta performance forjou um profissional singular. Contudo, é no conceito de Compliance que sua visão se torna ainda mais distinta. Apelidado de “o cara do Compliance”, ele rejeita o confete e reposiciona o debate. Para ele, implementar um programa de conformidade não é uma tarefa para advogados, a menos que possuam profunda formação em gestão. “Advogado não tem competência para implementar programas de conformidade. Quem tem são os gestores”, pontua. Por isso, sua empresa, a CR3 Compliance & Results, conta com os sócios José Cordeiro e Eugênio Lira, este último consultor do Banco Mundial há duas décadas.
Nesse sentido, a filosofia é clara: um programa de conformidade não pode ser um peso. “Se o programa de compliance gerar custo para a empresa, está errado. Tem que gerar valor. E valor tem que gerar resultado.” Em sua essência, trata-se de cultivar a cultura da integridade. Uma mudança de mentalidade que ele acredita ser o verdadeiro desafio, muito além da mera criação de procedimentos. “A cultura do jeitinho brasileiro não serve mais, nunca agregou valor. O que resolve é a cultura da integridade.”
A Força da Espiritualidade e o Poder da Persistência
Ele se recusa a aceitar o rótulo de “iluminado”. Este é um adjetivo que reserva exclusivamente para sua mãe, Vânia Lúcia Bormann de Souza Queiroz, protagonista de um episódio que cimenta sua fé no poder do propósito e da persistência aplicada à espiritualidade. Diagnosticada com um câncer confirmado por múltiplos exames de imagem, ela se dedicou à oração com a mesma disciplina que Carlos aplica ao estudo. Então, no exame final, antes da cirurgia programada, o mal havia desaparecido completamente. Sem dúvida, uma graça que ele interpreta como fruto da persistência espiritual de sua mãe.
“Eu acho que eu tenho a sorte de ter uma mãe que me ilumina. Eu só acho que eu sou uma pessoa esforçada”, pondera com humildade genuína. Essa atribuição do mérito materno revela não apenas gratidão filial, mas também uma compreensão madura sobre as forças que moldam uma trajetória de sucesso. Afinal, reconhecer a influência familiar não diminui o próprio esforço, mas o contextualiza dentro de uma rede de apoio e valores.
O Compromisso com a Natureza: Sustentabilidade em Ação
Apaixonado pelo mar desde a infância em Olinda, essa conexão com a natureza o levou a ser apelidado de “o velho do mangue”. Longe de ser uma alcunha pejorativa, é um título que ostenta com orgulho. É no Rio Timbó, lugar que considera o mais bonito do litoral norte, que um de seus projetos mais caros ao coração toma forma. Trata-se do Villa Pier Gourmet, um empreendimento com o Selo Verde, que promove iniciativas de preservação ambiental e eficiência energética. “Eu tenho um compromisso”, declara. “O projeto é 100% sustentável. O descarte do esgoto é feito através de biodigestores, e a nossa água final sai com a qualidade melhor do que a do rio.”
Anexado ao empreendimento, está a ONG Caranguejo Vivo e o Museu do Caranguejo Vivo; ou seja, um projeto para educar, preservar e replicar a cultura de cuidado com o mangue. “Não vejo sentido em um ser humano estar vivo sem pensar na natureza”, reflete. “Todo material produzido pelo museu é compartilhado de forma gratuita.” O projeto “Guardiões do Timbó”, que ele apresentou na 19ª Conferência Internacional sobre Adaptação Comunitária às Mudanças Climáticas, o fez receber o prêmio Vasconcelos Sobrinho, a mais alta comenda do governo de Pernambuco por atuação ambiental.
Uma Filosofia Holística: Pensar Além do Indivíduo
Além disso, sua busca por propósito se estende à relação com o mundo natural, revelando uma compreensão holística da existência. “A gente faz parte da natureza”, reflete, lembrando que somos o próprio DNA do planeta, inseparáveis do oxigênio e do equilíbrio ecológico que nos sustenta.
Essa percepção de interdependência com o meio ambiente não é romantismo, mas, sim, pragmatismo esclarecido. Para o presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB de Paulista, a vida deve ser vivida sem restrições artificiais. Porém, com a sabedoria de quem compreende que nossa liberdade individual está intrinsecamente conectada à saúde do sistema maior do qual fazemos parte.
A analogia com a criança que explora o mundo sem medo revela sua filosofia de abertura à experiência. Assim como bebeu em fontes distintas durante sua formação, ele mantém uma postura de curiosidade e receptividade que caracteriza os verdadeiros aprendizes ao longo da vida.
O Sucesso como Missão Coletiva
Ademais, é um pensamento que se alinha perfeitamente à sua visão sobre a vida em comunidade. “A gente não pode pensar no nosso umbigo. A gente vive em sociedade, a gente tem que pensar no coletivo.” Para Carlos Queiroz, o sucesso individual desconectado do bem comum não é verdadeiro sucesso. Pelo contrário, é uma ilusão que se desfaz com o tempo.
Essa filosofia se manifesta concretamente em sua prática profissional. Seus livros, sua mentoria informal de jovens advogados e sua disposição em compartilhar conhecimento – tudo reflete a convicção de que o crescimento pessoal deve servir a um propósito maior. Dessa forma, é uma perspectiva que eleva a advocacia de mera prestação de serviços à missão de construção social.
O Conhecimento como Ferramenta de Empoderamento
A paixão pelo conhecimento se materializa em livros que revelam um desejo genuíno de compartilhamento. Obras como a que aborda a Lei de Proteção de Dados e a persecução penal, ou aquela que questiona de forma direta “Por que sua empresa precisa de um programa de compliance?”, demonstram uma necessidade de traduzir complexidade em compreensão acessível.
Pelo contrário, ele não guarda o conhecimento em cofres intelectuais; prefere traduzi-lo em uma linguagem “simples, diria doméstica”, para que outros possam se alimentar e se retroalimentar dessa fonte. É uma postura que reflete sua filosofia pessoal: o conhecimento verdadeiro só se completa quando é compartilhado, quando se transforma em ferramenta de empoderamento para outros profissionais.
Tornando-se uma Fonte para os Outros
Essa generosidade intelectual se estende à sua prática diária. Seus textos não são meros exercícios acadêmicos, mas pontes construídas para conectar o conhecimento especializado às necessidades práticas do mercado. Como resultado, é o produto de quem bebeu nas melhores fontes e compreendeu que sua responsabilidade é se tornar, ele próprio, uma nascente para as próximas gerações.
A inspiração para escrever vem de lugares inesperados, como a frase de Caju e Castanha que abre um de seus livros: “Foi tanta coisa no meu pensamento que eu fui cantando”. É assim que ele produz, deixando o fluxo de ideias correr naturalmente para o papel, sem forçar ou artificializar o processo criativo.
Na verdade, sua paixão é deixar “inputs”, informações que sirvam de alimento intelectual para outros profissionais. Não se trata de imposição de ideias, mas de oferta generosa de perspectivas e conhecimentos que outros podem absorver, adaptar e desenvolver conforme suas próprias necessidades e contextos.
Esse método de criação revela uma compreensão madura sobre como o conhecimento realmente se desenvolve: não através de transmissão mecânica, mas de inspiração que desperta a curiosidade e motiva a busca pessoal. Em outras palavras, ele oferece as sementes; cada leitor cultiva seu próprio jardim intelectual.
Conclusão: A Alquimia do Sucesso Autêntico
De escrever livros com linguagem acessível a fundar projetos socioambientais e ser reconhecido como desenvolvedor de empreendimentos de impacto positivo, especialmente no contexto de sustentabilidade e responsabilidade social, a premissa colaborativa é o que o move. Ele acredita que a vida deve ser vivida em sua plenitude, com a mente aberta e o coração disposto a agregar ao próximo e a pensar no coletivo. Portanto, de seu escritório moderno, repleto de arte, ao seu refúgio no mangue, Queiroz demonstra que é possível ser múltiplo, profundo e, acima de tudo, coerente. Um homem que, após beber das melhores fontes, decidiu se tornar uma.
Carlos Queiroz não é apenas o resultado de suas experiências e leituras. Ele representa a materialização de uma filosofia onde o trabalho diligente, a busca por fontes puras de sabedoria e um propósito voltado ao bem comum não são apenas caminhos para o sucesso, mas o próprio sucesso em sua forma mais autêntica.
Ele bebeu conscientemente nas fontes de gigantes do direito brasileiro – tanto no campo empresarial quanto no penal. Absorveu não apenas técnicas jurídicas, mas também valores, posturas e compreensões profundas sobre o papel da advocacia na sociedade. E hoje, com seus livros, sua prática advocatícia, seus empreendimentos e sua filosofia de compartilhamento, tornou-se ele mesmo uma nascente para quem busca compreender as complexas correntes do direito.
Em suma, sua trajetória prova que nunca é tarde para descobrir uma vocação, que a experiência de vida pode ser convertida em autoridade profissional, e que o verdadeiro conhecimento se mede não pelo que se guarda, mas pelo que se oferece. Carlos Queiroz bebeu na fonte e soube se tornar nascente. É essa a alquimia que transforma bons profissionais em mestres de suas áreas.
Finalmente, a história deste advogado-empreendedor-escritor-mentor demonstra que o sucesso sustentável nasce da confluência de elementos aparentemente simples: persistência, propósito claro, humildade para aprender e generosidade para ensinar. São qualidades ao alcance de qualquer pessoa comum que decide se tornar extraordinária através da disciplina e do serviço ao próximo.


Revista Paradigma Expressão Ed. IV pág. 34/37 – Agosto 2025.





