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Ingrid Zanella: Entre Marés e Marcos

O calendário marcava novembro de 2024 quando os números começaram a se desenhar na apuração. Mais de 15 mil votos. Cada voto carregava o peso de uma expectativa, a força de uma mudança que se anunciava há décadas. Finalmente, quando o resultado final foi proclamado, Pernambuco testemunhou um momento que redefiniu sua história jurídica: pela primeira vez em mais de 90 anos, uma mulher assumiria a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil em terras pernambucanas.

Ingrid Zanella não chegou a este posto por acaso ou por uma questão meramente simbólica. Sua eleição representa a convergência entre preparo técnico excepcional, experiência sólida e uma visão transformadora da advocacia. Em oito meses de gestão, já é possível sentir os ventos de mudança que sopram pelos corredores da instituição que representa mais de quinze mil profissionais do estado.

Uma Gestão Coletiva e Comprometida

“Estar à frente da OAB-PE é mais do que uma função institucional. É um compromisso diário com a advocacia e com a sociedade. Nada vence o trabalho. É garantir que cada voz seja ouvida, cada direito respeitado e cada profissional se sinta parte de uma classe unida e valorizada”, afirma, revelando uma filosofia de gestão que coloca o coletivo acima do individual, o serviço acima do cargo.

Para compreender a dimensão do que representa tê-la à frente da OAB-PE, é preciso navegar pelas águas que ela conhece melhor que ninguém: o Direito Marítimo, Portuário, Ambiental e Aduaneiro. De fato, são áreas de especialização que exigem não apenas conhecimento técnico profundo, mas também a capacidade de enxergar além do horizonte imediato.

Da Especialização Jurídica à Referência Acadêmica

Mestre e doutora em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco, onde também atua como professora adjunta, ela construiu uma reputação que transcende as fronteiras estaduais. Nesse sentido, seus conhecimentos ecoam em salas de aula do Espírito Santo, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte. Onde quer que lecione, leva consigo uma convicção que se tornou marca registrada de sua atuação: a educação jurídica como pilar fundamental para fortalecer não apenas a advocacia, mas a própria democracia.

É impossível falar de sua trajetória sem mencionar o momento que definiria sua relação com a OAB. Ainda jovem, com a audácia que caracteriza os grandes transformadores, ela bateu à porta do então presidente Henrique Mariano. Não foi pedir favor ou buscar apadrinhamento. Foi propor algo que não existia: a criação da Comissão de Direito Marítimo e Portuário.

Uma Trajetória de Inovação na OAB

A proposta não apenas vingou como se tornou referência nacional, um modelo replicado em outras seccionais do país. Com efeito, aquele gesto revelou duas características que se tornariam constantes em sua caminhada: a capacidade de enxergar lacunas onde outros veem normalidade e a coragem de propor soluções onde outros apenas apontam problemas.

O que se seguiu foi uma escalada natural, mas nunca automática. Assim, cada degrau exigiu dedicação, cada cargo trouxe novos desafios e aprendizados. Da presidência da Comissão que ela própria havia proposto, passou para a direção acadêmica da Escola Superior de Advocacia de Pernambuco (ESA-PE), onde pôde materializar sua visão sobre a importância da educação continuada na advocacia.

A Ascensão Natural na Ordem

O reconhecimento veio em forma de responsabilidades crescentes. Assento como conselheira seccional, dois mandatos consecutivos como vice-presidente da Seccional e, em 2022, a presidência da Comissão Nacional de Direito Marítimo e Portuário do Conselho Federal da OAB. Cada posição foi uma escola, cada experiência um preparo para o desafio maior que se avizinhava.

Quando decidiu concorrer à presidência da OAB-PE, não foi movida por ambição pessoal, mas pela certeza de que sua experiência e visão poderiam contribuir para uma instituição ainda mais forte e representativa. O resultado das urnas confirmou que a advocacia pernambucana pensava da mesma forma.

“Nossa gestão tem o propósito de consolidar uma OAB de todos e para todos. Uma instituição firme, ética e transformadora”, declara. Suas palavras carregam o peso de um compromisso que vai além do discurso. Em apenas oito meses à frente da instituição, já é possível identificar os contornos de uma gestão que combina técnica, estratégia e, acima de tudo, sensibilidade humana.

Liderança que Navega entre Firmeza e Flexibilidade

Sua liderança não é construída sobre autoridade imposta, mas sobre autoridade conquistada. Como no Direito Marítimo, área em que se especializou, ela entende que navegar exige conhecer as correntes e respeitar os ventos. Ao mesmo tempo, é preciso manter o rumo firme em direção ao destino escolhido.

A comparação não é casual. Assim como o mar exige constância e adaptabilidade, a gestão de uma instituição do porte da OAB-PE demanda a capacidade de manter princípios sólidos. Simultaneamente, exige a adaptação às mudanças do cenário profissional e social. É essa combinação que tem marcado sua presidência: firmeza nos valores, flexibilidade nos métodos.

Seria fácil, mas reducionista, enxergar sua gestão apenas pelo prisma do pioneirismo. Com certeza, ela é a primeira mulher a comandar a OAB-PE em mais de nove décadas. De fato, sua eleição representa um marco histórico inegável. Mas o verdadeiro impacto de sua liderança vai muito além do simbolismo.

Mais que Pioneirismo: A Representatividade na Prática

Sua presidência inaugura uma nova forma de enxergar a representatividade. Ou seja, não como concessão ou conquista isolada, mas como resultado natural do preparo, da competência e da capacidade de construir pontes entre diferentes gerações e visões da advocacia. É representatividade que se sustenta não no discurso, mas na atitude concreta e nos resultados práticos.

Para jovens advogadas que hoje começam suas carreiras, Ingrid representa mais que um exemplo. É a prova viva de que não existem tetos intransponíveis quando se tem preparo, persistência e propósito claro. Sua trajetória demonstra que é possível quebrar barreiras históricas sem quebrar as tradições que fortalecem a profissão.

Construindo Pontes para o Futuro da Advocacia

É essa habilidade de construir pontes que tem se mostrado uma de suas características mais marcantes, conectando a advocacia com as demandas reais da sociedade. Além disso, ela promove uma visão mais integrada e multidisciplinar da profissão ao criar elos entre diferentes áreas do Direito. Por fim, prepara a categoria para os desafios que se aproximam ao estabelecer conexões entre o presente e o futuro.

Como professora, ela entende que ensinar é também aprender constantemente. Como gestora, aplica esse princípio à liderança da OAB-PE, criando uma gestão que escuta tanto quanto fala, que aprende tanto quanto ensina.

Um Legado em Construção Diária

Quando se fala em legado, é comum pensar em algo que se deixa ao final de uma trajetória. No caso de Ingrid Zanella, o legado está sendo construído a cada dia, a cada decisão, a cada atitude que reforça sua visão de uma advocacia mais forte, mais unida e mais conectada com seu papel social.

Sua gestão na OAB-PE não é apenas administrativa, é transformadora. Além disso, não se limita a manter o que já existe, mas trabalha constantemente para ampliar o que é possível. É uma liderança que se mede não apenas pelos projetos implementados, mas pela mudança de perspectiva que promove na própria instituição.

Como as marés que ela conhece tão bem em sua especialização jurídica, sua liderança não é episódica ou superficial. De fato, é uma força constante que vai redefinindo contornos, abrindo novos caminhos e redesenhando o futuro da advocacia pernambucana.

A trajetória de Zanella até a presidência da OAB-PE ilustra uma verdade fundamental sobre transformação: ela acontece quando preparo técnico encontra oportunidade histórica, quando competência individual se alia a propósito coletivo, quando coragem pessoal se transforma em benefício social.

OAB-PE

Hoje, à frente da maior entidade representativa da advocacia em Pernambuco, Ingrid Zanella representa mais que uma presidente. É uma força que move estruturas, que transforma realidades, que redesenha possibilidades. Sua liderança não é passageira como uma tempestade, mas permanente como as correntes marítimas que ela tão bem conhece.

Em uma época em que a advocacia enfrenta desafios sem precedentes, ter uma líder com sua formação, experiência e visão não é apenas uma conquista para as mulheres da profissão. Com toda a certeza, é uma vitória para toda a categoria e para a sociedade que dela depende para ver seus direitos protegidos e sua democracia fortalecida.

Quando a história da advocacia pernambucana for recontada, novembro de 2024 será lembrado não apenas como o mês em que uma barreira foi quebrada, mas como o momento em que uma nova era de liderança começou. Uma era em que competência e sensibilidade caminham juntas, em que tradição e transformação se complementam, em que o futuro é construído sobre bases sólidas do presente.

Revista Paradigma Expressão Ed. IV pág. 42/45 – Agosto 2025.

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