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Romeu Krause: O Homem que aprendeu a operar a própria mente

O Início Inesperado de uma Liderança

Em uma sala repleta de chefes de serviço da Sociedade Brasileira de Ortopedia, em Punta Cana, havia um homem que se sentia completamente deslocado. De fato, mais de cem profissionais proeminentes ocupavam aquele espaço, e Romeu Krause Gonçalves se enxergava como “o único intruso”. Ele não presidia comitês, nem ocupava cargos de destaque. Em suma, era, em suas próprias palavras, apenas um profissional competente de Recife que fora convidado por um colega que enxergava nele uma capacidade de liderança que nem ele mesmo reconhecia.

O Ponto de Virada a 10.000 Pés de Altitude

O voo de volta transformaria sua vida profissional para sempre. Naquele momento, o professor Laredo, figura respeitada da Escola Paulista e peso pesado da ortopedia nacional, foi categórico: “Amigo, você agora tem que fazer a prova de especialista. Ou você faz ou eu não tenho mais o que fazer com você. Não posso mais lhe ajudar em nada”. Com efeito, aquele ultimato, proferido a milhares de pés de altitude, materializava uma pendência que já durava um quarto de século.

A trajetória de Romeu até aquele momento havia sido atípica para os padrões médicos. Nascido em Vitória de Santo Antão, foi uma espécie de geração espontânea na medicina — sem parentes na área, formou-se em 1971 e, em seguida, partiu para o Rio de Janeiro em busca de especialização. Contudo, o retorno precoce a Recife foi forçado pela morte do pai. A vida exigiu pragmatismo. Enquanto seus pares faziam a recém-instituída prova para obter o título de especialista, ele, por outro lado, precisava trabalhar e produzir renda. Assim, a prova ficou para depois. E o depois se estendeu por 25 anos.

25 Anos Depois: A Coragem de Enfrentar o Impossível

Aos olhos de muitos colegas, a decisão de enfrentar o exame mais difícil da ortopedia brasileira, duas décadas e meia após a formatura, beirava a loucura. “O índice de reprovação é mais de 30%”, alertavam. “Você vai fazer e vai passar vergonha”. Apesar disso, a resposta dele foi simples e definitiva: “Rapaz, eu vou fazer. Aí eu paro de trabalhar, me lasco todinho, vou estudar, mas vou fazer”.

O dia da prova tornou-se um evento folclórico. Ao chegar, os outros candidatos o confundiram com um dos examinadores — sem dúvida, um reflexo da idade e da experiência acumulada. O nervosismo era palpável. Por isso, quando os resultados foram afixados, ele não teve coragem de sair do carro. Então, pediu a um colega que fosse verificar, com uma instrução peculiar: “Vai vendo de baixo para cima. Não veja de cima para baixo, não, pelo amor de Deus”. A demora do colega só aumentava a tensão, até que ele voltou com um sorriso largo: “O bicho, tu passaste em 10º lugar”.

A ligação para o professor que o havia empurrado para o abismo foi imediata. “Professor Laredo, tenho uma notícia boa, viu? Passei na prova e passei em 10º lugar”. A resposta do outro lado da linha, em uma honestidade cortante e bem-humorada, selou a anedota: “Ô, seu filha de uma p***, você tira uma nota dessa, você me compromete até a alma, vão pensar que eu dei a prova a você”.

A Disciplina da Mente: O Segredo da Gestão Emocional

Esse episódio oferece uma janela para compreender um homem que desenvolveu uma capacidade singular de gerir os próprios pensamentos e emoções. “Eu tenho uma cabeça, para vocês entenderem, que eu chamo compartimental”, explica Romeu. “Eu nunca misturo uma coisa com a outra. Se eu tiver um problema dentro da minha clínica, eu resolvo na clínica. Se eu tiver um problema dentro de casa, eu resolvo dentro de casa. Ou seja, eu não levo o meu problema de casa para canto nenhum”.

Essa disciplina mental, segundo ele, não é um dom natural, mas sim resultado de trabalho deliberado. “A cabeça você ajeita por dentro”. É uma habilidade que ele desenvolveu ao longo de décadas e que, posteriormente, se revelou fundamental quando, em 1998, decidiu que era hora de um “voo solo”.

O Voo Solo: A Fundação do Itork

Inicialmente, sócio de uma clínica estabelecida onde a regra era a exclusividade, Romeu sentiu a necessidade de criar algo novo. Por isso, reuniu-se com os sócios, colocou sua cota à venda de forma transparente e se preparou para uma nova aventura. Para sua surpresa, os colegas decidiram que ele poderia manter sua participação e, simultaneamente, fundar seu novo empreendimento.

Assim nasceu o Itork — Instituto de Traumatologia e Ortopedia Romeu Krause. O nome, sugestão do sócio Túlio Vinícius, quebrava uma tradição local. Era uma instituição de ortopedia com o nome de seu coordenador. O que começou com quatro sócios transformou-se em uma equipe de mais de vinte profissionais, ocupando um prédio de quatro andares e, consequentemente, realizando cerca de 5.000 atendimentos mensais.

O crescimento trouxe a complexidade natural de administrar pessoas. No entanto, a filosofia permanece inalterada: ouvir os mais novos, dividir responsabilidades — como as que confia ao filho, Marcelo Krause, e ao colega Stemberg Vasconcelos — e, acima de tudo, adaptar-se às circunstâncias. O Itork já se contraiu por conta das regras restritivas de planos de saúde e agora, em um novo ciclo, volta a se expandir.

Os Pilares de uma Jornada

O sustentáculo dessa jornada de cinco décadas é Hosana, sua esposa. Ela representa o “grande porto seguro” de toda a trajetória. Anestesista, esteve ao seu lado em cada decisão, inclusive na experiência desafiadora de um fellowship na Inglaterra com dois filhos pequenos, de 3 e 2 anos. O mais novo contraiu hepatite ao chegar e passou 40 dias em isolamento hospitalar. “Hoje é muito bom de contar, viu?”, pondera. “Mas na época… foi muita dureza. Afinal, a vida não é fácil não. Quem pensar que vai viver de vida fácil, esqueça”.

A formação intelectual e cultural de Romeu encontra seu principal alimento nas conversas com o irmão, Gustavo Krause, que ele define como a pessoa mais inteligente que já conheceu. Justamente, é nessas interações que ele lapida suas ideias e perspectivas sobre o mundo.

A Essência do Legado: Mais do que Conquistas

Essa trajetória o levou a ocupar a presidência da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, tornando-se um dos poucos nordestinos a ocupar a cadeira em oito décadas de história da entidade. Contudo, o homem que enfrentou a prova de especialista tardiamente, que construiu uma instituição de referência e que liderou sua categoria profissional encontra sua maior realização não nos títulos ou reconhecimentos formais.

Na verdade, quando questionado sobre o que espera deixar como legado, a resposta se afasta completamente de prédios e honrarias. O que realmente importa é o nome, a reputação construída ao longo do tempo. “O orgulho dos filhos de dizer assim: ‘Meu pai foi gente’. Meu pai é impossível você encontrar alguém que diga que eu fiz mal a alguém”.

Nesse desejo simples e profundo reside o propósito final de uma trajetória. Uma jornada marcada pela coragem de se testar quando muitos considerariam tarde demais. Além disso, foi marcada pela habilidade de compartimentar desafios sem deixar que um problema contamine outras áreas da vida e, finalmente, pela convicção inabalável de que o maior feito de qualquer pessoa é fazer o bem.

Afinal, a história de Romeu Krause Gonçalves prova que nunca é tarde para enfrentar aquilo que se adiou, que a disciplina mental pode ser desenvolvida com trabalho consciente, e que o verdadeiro sucesso se mede não pelos cargos ocupados, mas sim pela capacidade de manter a integridade e a bondade mesmo quando ninguém está observando.

Revista Paradigma Expressão Ed. IV pág. 50/53 – Agosto 2025.

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