Nas águas cristalinas que circundam Pernambuco, onde ventos alísios encontram velas dispostas a desbravar horizontes, navega uma história de paixão marítima que atravessa gerações. Emílio José Fernandes Russell, administrador aposentado de 70 anos, carrega em seu currículo náutico um legado que transcende conquistas pessoais e se confunde com a própria história da vela pernambucana e brasileira.
O Legado de Família e o Início no Cabanga Iate Clube
Aos cinco anos, em 1960, ele recebia de seu pai Carlos Russell as primeiras lições sobre como ler ventos e correntes. O patriarca, figura respeitada no Cabanga Iate Clube, ocupou cargos como Comodoro e Presidente do Conselho. Em primeiro lugar, ele plantava na criança uma semente que floresceria em décadas de dedicação aos mares pernambucanos. A herança familiar não se limitava apenas ao conhecimento técnico. Pelo contrário, incluía um amor profundo pelo oceano, que se tornaria a essência de sua existência.
O veleiro Pinguim, que ganhou aos oito anos, marcou o início oficial de uma carreira competitiva. Ela o levaria a representar Pernambuco e o Brasil em águas nacionais e internacionais. Campeonatos pernambucanos e Norte-Nordeste se sucediam. Contudo, foi como proeiro de seu pai na classe Lightning que ele alcançou seus primeiros grandes triunfos: oito títulos consecutivos de Campeão Pernambucano e três conquistas Norte-Nordeste.
Conquistas Nacionais e Internacionais
A representação brasileira no Sul-Americano de 1971 no Rio de Janeiro abriu caminho para participações ainda mais prestigiosas. Por exemplo, o Mundial de 1973 no Canadá e o Norte-Americano nos Estados Unidos. Desse modo, consolidaram Emílio como um dos velejadores mais respeitados de sua geração, levando as cores pernambucanas a competições internacionais de alto nível.
Sua conexão com o Cabanga Iate Clube transcendia a prática esportiva. Aos 16 anos, o diretor social Ayrton Lustosa o nomeou Diretor Adjunto Social, juntamente com Mário Roberto Jácome. Essa responsabilidade ele assumiu organizando diversos encontros festivos, denominados Jovem Marinheiro. Essa experiência administrativa precoce revelava uma capacidade natural de liderança que se manifestaria ao longo de toda sua trajetória.
A Carreira Profissional e a Gênese da Vela Oceânica
O período entre 1977 e 2000 como assessor administrativo da CELPE no departamento de organização e sistemas proporcionou estabilidade profissional. Entretanto, isso jamais diminuiu sua dedicação às competições. Durante esses anos, ele explorou diferentes classes de veleiros. Passou por Hobie Cat 16, Laser e Snipe, até encontrar sua verdadeira vocação na classe Oceano a partir de 1978.
O início da década de 80 marcou um momento transformador com a fundação da APVO (Associação Pernambucana de Veleiros de Oceano). Hoje é conhecida como FREVO (Flotilha Recifense de Veleiros de Oceano). Como fundador e primeiro capitão da flotilha, Russell não apenas organizava competições, mas também ajudava a estruturar um movimento que fortaleceria a vela oceânica em todo o estado. Sua expertise o levou a representar comercialmente as principais fábricas brasileiras de veleiros, CARBRASMAR e MARINER. Assim, expandiu seu conhecimento técnico através de vendas e deliveries pelo país.
O Jangadeiro IV e as Expedições Históricas
Em 1987, a aquisição do veleiro Jangadeiro IV, em sociedade com seu pai, inaugurou uma das parcerias mais longevas da navegação pernambucana. Durante 34 anos, essa embarcação seria sua companheira em aventuras extraordinárias, começando com a primeira de catorze travessias ao Atol das Rocas. Essas expedições iniciais, realizadas antes da fiscalização sistemática do IBAMA, abriram caminho para uma colaboração institucional única.
Nas treze travessias seguintes ao Atol das Rocas, o Jangadeiro IV transportava autoridades do IBAMA e ICMBio para implementação do plano de manejo do parque. A embarcação também levou diretores da UNESCO, responsáveis por denominar o Atol como Patrimônio Natural Mundial. Além disso, uma expedição especial para gravações do Caldeirão de Verão. Este programa levou o apresentador Luciano Huck e a humorista Maria Paula do Casseta & Planeta até aquelas águas preservadas.
Entre 2000 e 2008, ele assumiu a representação brasileira do Rallye Les Iles Du Soleil/Rallye Transamazone. Assim, coordenava a recepção de veleiros europeus em Salvador, Recife, Fernando de Noronha, Fortaleza, Ilha do Marajó e Belém. Essa experiência internacional o levou a navegar oito vezes pelo rio Amazonas até Alter do Chão em Santarém. Adicionalmente, as extensões incluíram Caiena na Guiana Francesa e Trindade e Tobago no Caribe.
Seus últimos sete anos de atividade profissional foram como Supervisor Administrativo da Construtora Camargo Corrêa. Sua gestão culminou com a construção do centro de lançamento de foguetes em Alcântara, no Maranhão. Este projeto de complexidade técnica extraordinária exigiu toda sua experiência em organização e sistemas, encerrando com chave de ouro uma carreira administrativa sólida.
Compromisso Institucional e Reconhecimento
Mais de duas décadas dedicadas à Diretoria de Vela e Oceano e ao Conselho Deliberativo do Cabanga Iate Clube evidenciam seu compromisso institucional. Sua participação ativa na vida do clube desde a infância contribuiu decisivamente para a expansão e sucesso da instituição. Por conseguinte, consolidou o Cabanga como referência náutica nacional.
O reconhecimento de seus pares veio através de homenagem especial por sua participação única nas primeiras 30 edições da Regata Internacional Recife-Fernando de Noronha. Tornou-se o único velejador a participar todas as 36 edições já realizadas da REFENO, acumulando 60 travessias entre Recife e Fernando de Noronha. Analogamente, participou da comissão organizadora de mais da metade das edições.
O Legado Duradouro de um Velejador
Suas 133 mil milhas navegadas representam mais que estatística impressionante. Em outras palavras, constituem testemunho de uma vida dedicada integralmente aos mares. Cada milha percorrida carrega histórias de superação, descoberta e paixão genuína pelo oceano que banha as costas pernambucanas.
Para Emílio, por outro lado, sua maior conquista permanece no âmbito familiar. Ele costuma afirmar que ser pai de Manuella (Manu Asfora) e avô do Kepler (Plinho) supera qualquer título ou reconhecimento náutico. Essa perspectiva humaniza um currículo repleto de feitos extraordinários. Desse modo, revela que por trás do velejador excepcional existe um homem que compreende as verdadeiras prioridades da existência.
Sua história com as águas pernambucanas espelha a própria evolução da vela no estado. Das regatas locais às competições internacionais, do Cabanga Iate Clube aos mares internacionais, ele personifica uma geração que elevou Pernambuco ao patamar de potência náutica nacional.
Em conclusão, o legado que ele constrói transcende seus próprios feitos. Cada jovem velejador que hoje navega pelas águas do Recife beneficia-se das estruturas e tradições que ele ajudou a estabelecer. Sua contribuição para o desenvolvimento da vela pernambucana permanecerá como referência para futuras gerações de navegadores.
Em um mundo onde paixões genuínas se tornam cada vez mais raras, Emílio Russell representa a persistência de uma vocação autêntica. Sua dedicação aos mares pernambucanos honra não apenas sua família e o Cabanga Iate Clube, mas todo o estado que teve nele um dos seus maiores embaixadores náuticos.
Nas velejadas de Emílio Russell, Pernambuco encontrou um de seus filhos mais dedicados, alguém que transformou amor pelo mar em legado duradouro para a vela brasileira.






