Luciana de Souza Lins participa de um ecossistema de advocacia com uma premissa singular: sua missão é restaurar a dignidade daqueles que são mais vulneráveis. Aos 48 anos, ela é a gestora, a estrategista e o pilar filosófico de uma operação que, partindo de Recife há 20 anos, hoje se estende por Olinda, Paulista e Vitória de Santo Antão. Seus parceiros, Fernando Lins e Felipe Zarzar, são os técnicos. Contudo, a metodologia, o crescimento e a alma do empreendimento pertencem a Luciana.
O Percurso Pessoal e a Ironia Poética
Seu percurso desafia expectativas, tendo começado no mundo corporativo como secretária no mesmo escritório que atua hoje. Naquela época, para complementar a renda, assumiu uma banca de jogo de bicho. A ironia poética de sua vida se desenha na geografia: ela, que passava os jogos pelos galpões de açúcar no Cais de Santa Rita, hoje reside no Parque do Cais. Esse apartamento simboliza um ciclo completo de realização. “Passou um filme aqui em mim”, confessa, ao recordar a disparidade entre o passado e o presente.
A Descoberta da Vocação no INSS
Sua verdadeira vocação despertou na burocracia humana do INSS. Tudo começou, por exemplo, com uma vizinha que sofria com erisipela e precisava de um benefício. Luciana peregrinou com ela por um ano, de agência em agência, enfrentando negativas. Acabou se tornando uma figura conhecida, ajudando a preencher formulários e aprendendo o sistema por dentro.
O ponto de inflexão da sua trajetória foi quando ela concedeu o primeiro benefício que ela mesma processou. Foi então que ela passou a botar em prática sua missão de restaurar a dignidade daqueles que são mais vulneráveis. Assim, identificava pessoas com deficiência ou problemas neurológicos e as guiava pelo labirinto do INSS. Em menos de um ano, conseguiu aposentadoria para mais de mil pessoas.
A Metodologia Humanizada e a Gestão
Hoje, ela não atende mais diretamente as 45 pessoas que chegava a atender diariamente naquela época. Atualmente, sua função, além da gestão, é também lidar com colaboradores recém-chegados, que saem da universidade com conhecimento teórico, mas sem prática. Com base na sua experiência, o conselho que dá é simples: “Você tem que tratar a pessoa como um ser humano. Ela vai te trazer uma dor e você tem que acolher pela dor. O importante mesmo é não pensar no contrato que você vai fechar, e sim na vida que você vai restaurar.”
Seu método é tão distinto que funcionários que deixaram sua equipe para abrir os próprios negócios replicam seus formulários e seu sistema de gestão. A matriz, no Cabanga, reflete essa filosofia: serve oito litros de café e quatro fardos de bolachas cream cracker por dia. Além disso, num movimento pioneiro em Recife, Luciana construiu uma área de lazer completa para as crianças dos clientes.
Redefinição de Missão por Dor Pessoal
A profundidade de sua missão, contudo, foi redefinida por uma dor pessoal. Em 2019, seu filho Pedro Lucas foi diagnosticado com autismo. Ela havia acabado de comprar um apartamento em Boa Viagem. Ao olhar da varanda, a realização de um sonho material se desfez: “Eu vi que aquele ambiente não era adequado para ele. Deus me deu um filho autista, e eu não vou poder usufruir desse apartamento.” Ela descreve o momento como “libertador”, uma correção de rota que a fez entender que os bens materiais não eram o objetivo.
Num movimento de pura imersão, e que prova sua capacidade de realização, ela mergulhou nos estudos sobre o autismo e formou-se em psicanálise. Assim, usou a própria dor como propósito. Hoje, ela implementou um acolhimento especial para mães atípicas. Ela própria faz a triagem, usa sua escuta psicanalítica para identificar as necessidades e direciona as crianças para tratamento. “Na maioria das vezes elas são abandonadas pelos maridos”, relata. Ela estima que 70% das mães que atende enfrentam essa covardia.
Seu trabalho é transformar vidas, “daqueles que gritam pelo pedido de socorro e a justiça não chega”. Agora, ela visualiza o próximo passo: um projeto para transformar a casa onde morava, no Cabanga, em uma instituição dedicada a mães atípicas. O plano inclui oferecer suporte psicológico e até um salão de beleza, para cuidar de quem cuida.
Legado e Conclusão
Luciana de Souza Lins honra Pernambuco ao ser uma engrenagem em um dos mais eficientes sistemas de acesso à dignidade para os invisíveis. Através do seu trabalho, ela restaura vidas, alimenta famílias e dá suporte a mães que perderam sua rede de apoio. Ela criou um método onde o acolhimento não é um diferencial, mas sim a essência.
Analogamente a Priscila Senna, a artista que admira profundamente, sua história não foi meteórica, mas construída aos poucos. Ambas começaram do zero, com humildade, e cresceram sem se desconectar da essência popular. Luciana, assim como a cantora, compreende a dor que precisa ser consolada e usa sua voz para devolver a esperança ao povo pernambucano.






