José Maria Coelho Sultanum (Zé Maria Sultanum) opera por um código que o Atlântico lhe ensinou: “Não dê ré. Vá pra frente.” Aos 69 anos, o empresário define sua existência por uma inversão de papéis. “Eu era empresário e eventualmente pescador, aí virei pescador e eventualmente empresário.” O que começou como uma visita de fim de semana a Fernando de Noronha, há 39 anos, tornou-se a obra de uma vida.
Sua chegada à ilha foi a grande virada. Consequentemente, ele trocou o comércio varejista e atacadista no continente por uma necessidade que se converteu em paixão e ditou seu norte profissional. O ponto de partida dessa transformação foi, primeiramente, a Pousada Zé Maria.
Construindo um Ecossistema Sustentável
Contudo, ele não se contentou em apenas hospedar. Ele percebeu que, para o turismo ser sustentável, precisava criar toda a infraestrutura de abastecimento. A pousada foi, portanto, a semente de um ecossistema complexo que hoje alimenta a ilha.
Desse núcleo, brotaram um atacado distribuidora, um armazém de construção, restaurantes, uma agência de turismo, o primeiro supermercado local e uma cozinha industrial. Além disso, surgiram barcos de carga, pesca e passeio.
Para garantir o fluxo, ele estabeleceu entrepostos logísticos em Natal e Recife. Dessa forma, demonstrou uma maestria logística que ele próprio admite ser uma de suas grandes paixões, ao lado de cozinhar.
Filosofia de Vida e Lições de Resiliência
Sua bússola interna dispensa relógios e agendas. “Minha agenda é momentânea”, explica. Sem formação acadêmica, sua universidade foi a da vida, pautada na necessidade e nos impulsos pessoais. Essa filosofia o torna ousado todo dia. Em outras palavras, ele não planeja muito; ele acontece.
Essa resiliência foi testada em águas profundas. Seu maior obstáculo foi o primeiro barco que afundou. Em seguida, foi o segundo. Por fim, o terceiro pegou fogo. A lição: “Em vez de dar ré, acelerar.”
A Resposta à Extorsão e o Legado
Essa mentalidade se traduz em uma história emblemática de sua trajetória. Quando um fornecedor de gelo na ilha tentou extorqui-lo, triplicando o preço ao crer que Zé Maria não tinha alternativa, ele não cedeu. “Tá bom”, disse ele. Depois, agiu.
Montou um barco, encheu-o de gelo no continente, trouxe-o para Noronha e supriu sua demanda. Ele ainda vendeu o produto pela metade do preço do concorrente, com lucro.
Seu legado, ele afirma, não é o patrimônio, mas a distribuição de renda e o trabalho para as pessoas. Seus negócios empregam cerca de 500 pessoas, diretas e indiretas. “Eu me considero uma pessoa que tem que deixar a marca de que valeu a pena ter passado por aqui”, reflete. Zé Maria honra Pernambuco ao encarnar a determinação focada que ele vê em seu povo. Por exemplo, a capacidade de, diante do impossível, criar uma solução logística do zero.
Assim como Francisco Brennand, que admirava, transformou as ruínas de uma olaria familiar em um universo artístico singular e potente, Zé Maria transformou a logística de uma ilha isolada em um ecossistema próspero. Por conseguinte, ele provou que a simplicidade, como diz, é a excelência da vaidade.






