Ao Leitor: O Mapa das Mentes Extraordinárias
O que define uma Mente Extraordinária?
Não é um único feito, um golpe de genialidade isolado ou uma conquista singular. Descobrimos, ao longo de nossa jornada editorial, que a verdadeira excepcionalidade reside na coerência entre quatro dimensões distintas, porém inseparáveis: a jornada que molda o caráter, a filosofia que guia a mente, a disciplina que move a ação e o impacto que define o legado.
Para capturar a essência completa de cada coautor presente nesta obra, não nos contentamos com uma biografia linear. Fomos mais fundo. Estruturamos cada capítulo como um mergulho em quatro atos, permitindo ao leitor não apenas conhecer a história, mas dissecar o mecanismo por trás das realizações.
Ao navegar por este livro, você encontrará cada perfil dividido da seguinte forma:
- Trajetória
Aqui, estabelecemos a fundação. Esta seção é a bússola que nos situa, apresentando uma descrição pessoal e profissional que revela as origens, os valores absorvidos e os pontos de virada que forjaram a identidade do indivíduo. É o mapa de onde ele veio e quem ele se tornou. - Pensar
Esta é a arquitetura da mente. Mergulhamos no mundo interno, explorando os modelos mentais, as crenças inegociáveis e a filosofia que serve como alicerce para todas as decisões. É aqui que entendemos por que eles fazem o que fazem. - Agir
Se “Pensar” é a estratégia, “Agir” é a execução. Investigamos a ponte entre a ideia e a realidade: os hábitos, a gestão do risco, a tomada de decisão sob pressão e a disciplina diária que transforma visão em movimento concreto. - Realizar
Este é o resultado, o impacto tangível no mundo. Analisamos as conquistas não como um ponto final, mas como a manifestação de tudo o que veio antes. É a prova viva do alinhamento entre sua trajetória, seu pensamento e suas ações, consolidando o seu legado.
Ao seguir esta estrutura, convidamos você a fazer mais do que admirar; convidamos você a compreender. Bem-vindo às Mentes Extraordinárias.
1. Trajetória: O Edifício da Vontade e o Alfabeto da Alma
O destino não se cumpre pela inércia; a inércia, pela estagnação; a estagnação, pelo medo do desconhecido. No caso de Marinalva Gonçalves, a existência jamais foi um roteiro recebido das mãos da facilidade, mas uma gramática conquistada no calor de uma vila operária em Paulista, Pernambuco. Filha de João Gonçalves de Souza e Anita Josefa Gonçalves de Souza, ela respirou, desde a primeira infância, a atmosfera de um lar onde o esforço era o pão cotidiano e a dignidade era o vinho da honra. João, seu pai, era um operário de mãos calejadas e mente alada; um intelectual nato que, embora desprovido de diplomas acadêmicos, escrevia livros, liderava sindicatos e possuía uma visão futurista que o tempo custaria a alcançar. Anita, sua mãe, mesmo sem ter tido a oportunidade de estudar, tornou-se a guardiã da sabedoria prática, percorrendo sebos em busca de volumes que alimentariam a curiosidade de seus onze filhos. Ali, entre o estridor das máquinas da fábrica têxtil e o silêncio reverente das orações à mesa, forjou-se a percepção de que a educação é a única alavanca capaz de mover as montanhas da desigualdade.
A formação desse caráter não ocorreu em campos de lazer, mas em um regime de disciplina e observação. Aos domingos, o cenário era imutável: os onze irmãos, comprimidos dentro de uma Brasília velha, partiam rumo à missa sob a condução firme do patriarca. Após o rito sagrado, a parada obrigatória era a casa do avô materno, Felipe Rodrigues de Souza, o respeitado “Dindinho”. Naquela sala, uma lição de etiqueta moral era ministrada antes mesmo do primeiro passo: João instruía a prole a recusar as primeiras ofertas de lanche, ensinando que a satisfação reside no autocontrole, e não na gula. Somente após o sinal discreto do pai, a abundância dos doces de jaca era permitida. Esse rito de contenção e respeito ao espaço alheio instalou no hardware de Marinalva o discernimento entre a necessidade e o desejo, uma bússola de polidez que a acompanharia pelas salas de aula da vida adulta. O exemplo doméstico era a pedagogia da presença: o almoço e o jantar eram momentos inegociáveis de união, onde a bênção era pedida não como um protocolo, mas como o reconhecimento de que a proteção divina emana da linhagem.
A vocação, contudo, muitas vezes se disfarça de desejo, mas o desejo, de ilusão, e a ilusão, de refúgio. Internada no prestigiado Colégio Rosa Gattorno — na época, o reduto de elite da educação recifense —, a jovem Marinalva buscava no silêncio do claustro uma resposta para sua inquietação espiritual. O plano era a renúncia; o destino, a clausura; o sonho, o véu. Ela desejava ser freira, entregando sua juventude ao serviço de Deus. Entretanto, a sabedoria não habita apenas nos dogmas, mas nos olhos de quem vê além da névoa. Uma irmã paraense, detentora de uma lucidez que o tempo apenas lapidara, proferiu o veredito que alteraria a rota daquela menina de dezesseis anos: “Você não nasceu para o convento, Marinalva, mas para o mundo”. A religiosa percebeu que a chama que ardia naquela jovem não era a do recolhimento, mas a da transformação ativa. Aquele “não” institucional foi o parto de uma autonomia que não admitiria retrocessos. Graduada em Pedagogia aos dezesseis anos, ela compreendeu que sua missão não era orar no silêncio, mas ensinar no estridor da realidade.
A escassez é a mãe da invenção; a invenção, a filha da necessidade; a necessidade, a mola da existência. Sem capitais para erguer muros de mármore, ela ergueu muros de coragem moral. Em 1973, Marinalva fundou a Escola Minnie, um projeto que desafiava a lógica da prudência financeira. Pediu a casa emprestada à irmã mais velha, Lila, que adiou seus planos de casamento para ceder o teto ao sonho da caçula. Sem recursos para reformas, a pedagoga utilizou a estética da simplicidade: revestiu as paredes com esteiras de piquenique compradas em feiras populares e aplicou verniz para conferir-lhes brilho e durabilidade. Diante da falta de vidros nos basculantes, sua mente operou uma transmutação química: limpou chapas de raio-x com água sanitária até torná-las translúcidas, pintando-as em seguida para criar um efeito que encantou a vizinhança. O que o mercado chamaria de improviso, a alma chamava de criação. Aos dezessete anos, ela começou sua lida com apenas oito alunos, terminando o primeiro ciclo com vinte. A vitória não veio de planilhas de marketing, mas da entrega absoluta ao ato de cuidar.
O crescimento da instituição foi o reflexo de uma obstinação que ignorava o cansaço. Em quatro anos, a pequena casa já não comportava os cento e cinquenta alunos que buscavam o calor de sua pedagogia. Marinalva não apenas ensinava; ela moldava destinos. Adquiriu o primeiro terreno e começou a erguer, tijolo por tijolo, o que viria a ser um colosso educacional de 6.100 metros quadrados de área construída. Dez anos após a fundação, num gesto de profunda reverência à sua ascendência, transformou a Escola Minnie no Colégio Anita Gonçalves, homenageando o nome de sua mãe e o sobrenome de seu pai. Essa fusão nominal selou o compromisso de que a escola não seria apenas um negócio, mas um monumento vivo à herança de João e Anita. A busca pela excelência a levou além-mar, até a Itália, onde mergulhou na Escola Dei Bambini para absorver a essência do método Montessori. Trazer essa tecnologia humana para o município de Paulista foi um ato de pioneirismo que revolucionou a educação infantil na região norte do estado.
Ao longo de mais de cinco décadas, aproximadamente 35.000 vidas atravessaram os portais de sua instituição. Marinalva viu sobrinhos tornarem-se advogados de renome, engenheiros da Petrobras e gestores de sucesso, todos germinados sob sua tutela. O orgulho que hoje sente não repousa na vastidão do concreto que administra, mas na substância do “ser” que sobrepõe ao “ter”. Ver uma ex-aluna tornar-se pós-doutora e citar seu nome em teses acadêmicas é o selo de sua imortalidade biográfica. Ela provou que a filha de um operário poderia não apenas frequentar a academia, mas fundar sua própria catedral do saber. O sucesso, para ela, jamais foi uma linha de chegada financeira, mas uma conquista contínua de dignidade e serviço.
Hoje, aos 70 anos, Marinalva permanece como a regente desse ecossistema de paz. A escola, que abriga uma das capelas mais belas de Paulista, é o testemunho de que a fé e a técnica podem coabitar em harmonia. Embora tenha se aposentado oficialmente há quinze anos, ela recusa a inércia do descanso absoluto. Ocupa-se da regência do colégio com a mesma energia de quem limpava chapas de raio-x no início da caminhada. Sua vida é a materialização de uma máxima que ela repete como um mantra de esperança: a verdadeira grandeza não está no que se acumula no bolso, mas no que se semeia na alma do próximo. Seus filhos, Anitinha e João Gonçalves de Souza, hoje integrados à gestão do legado, são as sementes que garantem que o nome dos avós continuará ecoando nos corredores do tempo. Marinalva não apenas trilhou um caminho; ela pavimentou uma avenida de possibilidades para todos que tiveram o privilégio de serem seus alunos, provando que a coragem moral é, de fato, o motor mais potente da transformação social.
2. Pensar: A Metafísica do Cuidado e a Ontologia do Ser
Se a fundação de um indivíduo reside na terra onde brotou, o seu motor intelectual habita a frequência da alma que o conduz. Para Marinalva Gonçalves, o pensamento não opera como um processador de dados frios ou uma calculadora de lucros imediatos; ele funciona como um radar de alta sensibilidade, sintonizado na fronteira entre a ética absoluta e a utilidade pública. A sua arquitetura intelectual rejeita a complexidade barulhenta em favor de uma simplicidade que atinge o ápice da sofisticação. Para compreender a mente que rege gerações em Paulista, é imperativo desbravar o seu axioma primordial, a ideia que sustenta todo o seu edifício de convicções: a primazia do “ser” sobre o “ter”.
Esta não é uma máxima de conforto existencial, mas um modelo mental rigoroso. Marinalva postula que a identidade precede a posse, a verdade antecede a vantagem, o caráter fundamenta o crédito. Em sua visão, a inversão dessa ordem é o prelúdio da falência humana. Ela compreende que o sucesso financeiro, desvinculado da integridade, é um evento volátil, uma fumaça que o tempo dissipa com a mesma velocidade com que surgiu. O pensar, portanto, inicia-se na purificação das intenções. Quando a mente habita a verdade, o mundo material responde com abundância; quando a mente busca apenas o interesse, a realidade devolve a escassez. Este compromisso com a transparência é o que confere à pedagoga uma paz de espírito que muitos confundem com juventude, mas que é, em essência, o resultado de uma consciência que não abriga sombras.
Dessa ontologia da verdade emana o seu segundo grande framework intelectual: a Pedagogia da Alteridade Pragmática. O lema que guia sua atuação — construindo o homem através da criança — revela uma compreensão profunda da causalidade social. Marinalva não enxerga o educando como um reservatório de conteúdos acadêmicos, mas como o solo onde o futuro é semeado no presente. O seu pensamento processa a infância como uma janela teológica e sociológica. Ela entende que moldar o pensamento de uma criança é, simultaneamente, reordenar a estrutura de uma nação. A inteligência, para ela, deve ser servil; ela existe para identificar a dor do próximo e convertê-la em solução coletiva. Ao exigir que seus alunos sintam o peso da necessidade alheia, ela os força a abandonar o egoísmo intelectual em prol de uma sensibilidade restauradora. Ela pensa o ensino como um ato de cura.
A fonte de sua clareza estratégica reside em um mecanismo que poderíamos designar como Radar da Transcendência Cotidiana. Onde muitos gestores buscam respostas em manuais de administração ou algoritmos de mercado, ela recorre ao silêncio da oração e à entrega espiritual. Sua mente opera em parceria com o invisível. Ao consagrar suas decisões ao Divino Espírito Santo e à Maria Santíssima, ela opera uma manobra de descompressão cognitiva: remove o peso do ego da mesa de negociações para permitir que a intuição flua sem os filtros do medo ou da soberba. A clareza que surge ao amanhecer não é um acaso, mas o resíduo de uma mente que aprendeu a descansar na fé para agir na razão. Ela trata o sagrado como o seu interlocutor primordial, transformando a espiritualidade em um instrumento de governança e harmonia.
Essa disposição de espírito gera uma relação peculiar com o tempo e com o mundo. Marinalva habita o agora com a intensidade de quem sabe que a vida é um fluxo ininterrupto de possibilidades, mas projeta o amanhã com a lucidez de quem reconhece a impermanência da matéria. Sua visão de futuro não é de temor, mas de adaptação vigilante. Ela antevê uma sociedade onde a tecnologia deve ser domesticada pela humanidade, sob pena de nos tornarmos estranhos em nosso próprio planeta. Para ela, a evolução mental deve caminhar no mesmo ritmo da evolução técnica, mantendo a bússola voltada para o serviço ao próximo. Ela acredita que o papel de uma mente extraordinária é o de ser um ponto de equilíbrio no caos, oferecendo solidez onde há fluidez e verdade onde há ruído.
O seu pensamento é, em última análise, um elogio à decência e à gratidão. Ela rejeita o cinismo contemporâneo que vê na bondade uma fraqueza. Para Marinalva, a benevolência é a estratégia mais inteligente de todas, pois ela cria laços que o dinheiro não compra e sustenta impérios que o poder não preserva. A sua mente é um laboratório onde a tradição dos valores herdados de seus pais, João e Anita, encontra a modernidade das técnicas educacionais de elite. Ela não busca a inovação pela estética da novidade, mas pela eficácia da transformação humana. Pensar, para esta mulher que desafia a cronologia, é o ato contínuo de alinhar o desejo da alma com a necessidade do mundo, preparando o terreno intelectual para que a execução seja, acima de tudo, um manifesto de amor e utilidade social. A mente está pronta; o plano é a paz; a meta é o bem.
3. Agir: A Gramática do Movimento e a Liturgia da Entrega
Ação. Ação. Ação. Se o intelecto concebe a integridade do “ser” antes da posse do “ter”, a execução torna-se o martelo que forja essa verdade na bigorna da realidade. Na dinâmica operacional de Marinalva Gonçalves, a transição entre a abstração do valor e a crueza do resultado não admite hiatos, não tolera hesitações, não aceita a paralisia do medo. O agir, neste contexto, revela-se como uma coreografia deliberada onde a intuição espiritual é convertida em um pragmatismo que recusa a mediocridade do repouso. A prontidão é sua lei; o movimento, sua sentença; a realização, seu destino. Ela compreendeu que a ideia sem a mecânica do movimento é apenas fumaça e que o governo da própria vida exige, primordialmente, a coragem de assumir o manche.
A pedra angular de sua execução reside na prontidão absoluta para o risco calculado. Quando a vocação bateu à porta aos dezesseis anos, ela não buscou o amparo das certezas estatísticas, mas o solo fértil da oportunidade bruta. Pediu a casa à irmã, Lila, e iniciou uma obra de artesania existencial. A metodologia de sua atuação inicial foi um exercício de transmutação material: revestiu paredes com esteiras populares, limpou chapas de raio-x com água sanitária para fabricar vidros, pintou o que era escuro para atrair a luz. Esta capacidade de converter a escassez em estética não foi um improviso de circunstância, mas um protocolo de poder. Ela agiu com a convicção de quem sabe que a elegância nasce da criatividade, e não apenas do capital. Ao terminar o primeiro semestre com vinte alunos, ela validou a tese de que a firmeza do remador é o que garante a direção do barco, independentemente da força da correnteza.
Esta voracidade operacional encontrou seu ápice no pioneirismo da educação maternal em Pernambuco, no ano de 1973. Receber crianças de um ano e oito meses em uma estrutura profissional foi um ato de ousadia que desafiou o pensamento limitado da época. Enquanto o mercado via no berçário apenas um espaço de recreação passiva, a sua execução instaurou um laboratório de desenvolvimento cognitivo. Marinalva implementou a transição do concreto para o abstrato através do toque, do som, da figura. Ao introduzir o método Montessori em Paulista, ela não apenas abriu uma escola; ela inaugurou uma nova tecnologia humana. A ação foi cirúrgica: moldar o cérebro da criança no ambiente social para construir o homem do futuro. Ela não esperou o consenso social para inovar; ela criou o fato para educar o consenso.
A liderança de Marinalva, exercida hoje na gestão de quase mil alunos e dezenas de colaboradores, é pautada pela “pedagogia do exemplo”. Ela rejeita a figura da gestora autocrata que aponta caminhos sem percorrê-los. Em sua filosofia operacional, o comando é uma consequência da conduta, e não uma outorga da hierarquia. Ela ouve as bases, convoca suas coordenadoras e abre um parêntese de quinze dias para que sugestões superem sua ideia inicial. Contudo, uma vez que o rumo é definido, a execução é inflexível. A sua palavra possui o peso de um contrato; o seu “sim” é sim, o seu “não” é não. Ao integrar seus filhos à estrutura — Anitinha na diretoria financeira e João no suporte ao legado —, ela opera uma transferência de autoridade que privilegia a responsabilidade sobre o privilégio. Ela lidera para formar sucessores, e não apenas para acumular subordinados.
O ápice de sua capacidade de gestão de crise manifestou-se na resolução de conflitos humanos dentro do ambiente escolar. Quando confrontada com um episódio de agressão racial entre estudantes, sua ação não foi o descarte punitivo imediato, mas a intervenção pedagógica restauradora. Ela suspendeu o recreio, convocou o pai e transformou o erro em um objeto de estudo. A sua metodologia consistiu em forçar o agressor a habitar a pele do agredido, utilizando a reflexão como o verdadeiro instrumento de punição. Agir, para ela, é pacificar; pacificar, para ela, é educar; educar, para ela, é salvar. Ela compreendeu que a agressividade gera revolta, mas a firmeza intelectual gera consciência. A decisão foi neutra no afeto, mas certeira no propósito, garantindo que o aprendizado superasse o ressentimento.
A execução de sua visão social transborda as fronteiras do lucro para habitar a solidariedade ativa. A campanha anual de arrecadação de cestas básicas é o exercício prático de sua bússola interna. Marinalva proíbe que os alunos simplesmente peçam os mantimentos aos pais. Ela exige que eles saiam aos condomínios, que batam de casa em casa, que sintam o peso do pedido para valorizarem a leveza da entrega. No ano passado, essa tática resultou na coleta de 400 cestas, um número que não mede apenas o volume da doação, mas a densidade da empatia despertada. Ela utiliza o choque de realidade como uma ferramenta de ensino, levando os jovens para conhecerem a escassez das comunidades vizinhas. O agir social é a materialização do seu senso de justiça: é preciso estar ao lado do outro para compreender o próprio lugar no mundo.
Mesmo em eventos de prestígio e premiações, seu agir é guiado pela transparência e pela visão futurista. Ao sugerir a mudança de local de uma premiação para o Engenho Apipucos, ela não buscou apenas o requinte, mas a viabilidade estratégica para o coordenador do prêmio. Ela ensina que a prosperidade deve ser compartilhada para ser legítima. Sua ação pedagógica e comercial é um convite constante à excelência. Ela profissionalizou a gentileza e transformou o compromisso econômico com os professores em uma questão de honra cristã. Pagar em dia, administrar com clareza e surpreender com a qualidade são os processos que mantêm a engrenagem do colégio em pleno vigor após cinco décadas.
O agir de Marinalva Gonçalves é, portanto, uma sucessão de passos calculados que visam a perenidade do bem. Ela não acredita no improviso como método, mas na organização como destino. A sua rotina é um regime de prontidão que começa antes da aurora e termina no tribunal da consciência, no silêncio do seu quarto. Ela age para honrar a herança de João e Anita, trabalha para potencializar o futuro de Anitinha e João, e realiza para pacificar o coração de milhares de famílias. A sua mão que assina o documento pedagógico é a mesma mão que se une em oração na capela da escola, provando que a execução mais eficiente é aquela que se submete à vontade divina enquanto domina a técnica terrena. Ela não caminha apenas; ela pavimenta, com a paciência da pedra e a pressa da vocação, o caminho para as próximas mentes extraordinárias.
4. Realizar: A Perenidade do Exemplo e o Horizonte do Afeto
A prevalência do ser fundamentou a retidão do agir; a retidão do agir consolidou a solidez do realizar. Se a mentalidade de Marinalva Gonçalves foi lapidada pela convicção de que o valor humano precede a posse material, a sua obra é a prova matemática dessa premissa. O Colégio Anita Gonçalves não se ergueu como um monumento à vaidade, mas como a materialização de uma promessa feita ao destino: a de que a educação seria a ponte entre a escassez da vila operária e a abundância da dignidade social. O triunfo desta gestora não se quantifica apenas pelos 6.100 metros quadrados de concreto que hoje administra, mas pela estrutura invisível do caráter que ajudou a formar em cada um das dezenas de milhares de alunos que atravessaram seus portais. Realizar, para ela, é o ato de converter a biografia privada em utilidade pública.
O legado que se consolida sob sua batuta transcende as métricas convencionais do mercado educacional. Sua assinatura inconfundível reside na humanização do ensino, transformando a escola em um útero social onde o conteúdo técnico é apenas o suporte para o florescimento da ética. Marinalva provou que é possível ser uma potência administrativa mantendo a humildade de quem serve à comunidade com o mesmo zelo de cinco décadas atrás. Onde o mercado via clientes, ela enxergou sementes; onde se buscava o lucro, ela plantou a esperança. Sua maior contribuição para Paulista e para o estado de Pernambuco é a normalização da excelência para quem veio da base. Ao ver um ex-aluno hoje ocupando postos de comando ou realizando pesquisas de pós-doutorado, ela recebe o dividendo que o dinheiro não compra: a certeza de que a luz de João e Anita, seus pais, continua a iluminar o mundo através de mãos que ela ajudou a treinar.
Essa obra, contudo, não é um evento estático, mas um organismo que exige a continuidade do afeto. A sucessão, para Marinalva, não é um descarte de autoridade, mas uma herança de responsabilidade. Ao integrar seus filhos, Anitinha e João, no núcleo decisório da instituição, ela assegura que a essência do colégio permaneça imune à erosão do tempo. A filha, como diretora financeira, e o filho, como guardião do legado, são os vértices que sustentam o futuro da organização. Eles não herdam apenas um CNPJ saudável; eles herdam uma missão cristã de acolhimento e transformação. A realização máxima de Marinalva é saber que o bastão que carrega será entregue a mãos que conhecem o valor do suor e a sacralidade da bênção. O sucesso, sob sua ótica, é a paz de quem construiu um império de valores onde a família e a profissão coabitam em absoluta harmonia.
A projeção dos próximos anos desenha-se como uma celebração da colheita ativa. Aos setenta anos, a fundadora recusa o silêncio da inércia. Se a aposentadoria oficial chegou há quinze anos, a vocação permanece em vigília constante. O futuro é um horizonte de viagens, de descoberta e de convivência com a nova geração. Ver o crescimento de sua neta, Mariana, e aguardar o nascimento do neto que ainda habita o ventre materno, são os projetos que recebem sua energia mais pura. Ela entende que a vida é um ciclo de renovação, e que sua função agora é ser o solo firme onde os novos rebentos poderão florescer. A vontade de conhecer o mundo, carimbando o passaporte ao lado de amigos e familiares, é o prêmio que ela se concede após meio século de dedicação ininterrupta ao magistério. Marinalva não espera o fim; ela celebra o percurso.
O impacto duradouro de sua existência manifesta-se no reconhecimento espontâneo de uma cidade inteira. Ser chamada de “tia Nalva” por homens e mulheres que hoje são avós é a consagração de uma vida que escolheu o amor como método de gestão. Ela provou que o idoso não é um ser arcaico, mas um reservatório de sabedoria inovadora, muitas vezes mais vibrante que o jovem desprovido de criatividade. Sua realização é a prova empírica de que a coragem moral é a única ferramenta capaz de vencer o preconceito e a desigualdade. Ela encerra este capítulo de sua biografia com a autoridade de quem não apenas viveu o seu tempo, mas o interpretou e o melhorou. A menina que limpava chapas de raio-x para fazer vidros tornou-se a mulher que clareou a visão de uma comunidade inteira.
Ao final desta narrativa, retornamos à definição de sucesso que Marinalva Gonçalves carrega como bússola: sucesso é ser realizado, sucesso é servir, sucesso é não parar. Para quem compreendeu que a vida só faz sentido quando transborda na vida do outro, a morte não é um ponto final, mas uma transição de luz. Ela deita a cabeça no travesseiro todos os dias com a tranquilidade de quem enfrentou o tribunal da consciência e recebeu o veredito da paz. O seu legado já está escrito na alma de Paulista, gravado no sucesso de Anitinha e João, e eternizado no sorriso de Mariana. Marinalva é a mente extraordinária que ensinou que, enquanto houver alguém disposto a construir o homem através da criança, o amanhã será sempre um convite ao mais belo dos começos.

