Expressão

Angela Botelho: A Arte da Dança e a Superação através do Movimento

O colete ortopédico chegou quando ela tinha nove anos, rígido, branco, implacável. Desse modo, os médicos o prescreveram para conter uma escoliose que ameaçava a coluna. Contudo, o que a medicina não calculou foi que aquela armadura de gesso e resina empurraria uma menina recifense diretamente para o balé. Consequentemente, iniciou-se uma carreira de mais de cinco décadas que ainda não deu seu último giro.

Crescida em Boa Viagem num tempo em que a Avenida Conselheiro Aguiar ainda era barro e o horizonte não tinha prédios, Angela Botelho recebeu de casa o que nenhuma grade curricular entrega: a permissão de ser. Sua mãe, pianista amadora que chegou a tocar no Teatro Santa Isabel e futura psicóloga, vivia num diálogo permanente de música clássica e liberdade experimental. Em contrapartida, seu pai, Guilherme “Willy” Botelho, com raízes inglesas e câmera Super 8 na mão, projetava filmes no terraço como quem antecipava décadas. Desse modo, nesse laboratório familiar, a arte entrou na vida dela com a urgência das necessidades fisiológicas.

Angela Botelho: A Formação Internacional e a Técnica

A terapia virou técnica, e a técnica virou missão. Sob a orientação de Eliana Cavalcante e da lendária Flávia Barros, a bailarina integrou o Grupo de Balé do Recife, percorreu dez cidades pelo país e, além disso, na primeira metade dos anos 70, desembarcou em Paris. Na Salle Pleyel, ela afinou movimentos. Na Sorbonne, por sua vez, fez modelo vivo. Num palco da Ópera, viu Nureyev desafiar a gravidade. Assim, voltou ao Recife com o corpo mais preciso e a certeza, agora sem ralo, de que a dança vive no sentimento que precede a forma.

A Fundação da Academia e os Espetáculos

A Academia Angela Botelho nasceu em 1996 num terreno escolhido e erguido pelo pai, que gerenciou cada etapa da obra, do cimento à chave, e morreu no mesmo ano em que a entregou. Pisar naquele chão de madeira todos os dias é, para ela, manutenção de memória. O prédio começou em parceria com a família Japiassú: Mônica Japiassú conduzia o Pilates no térreo enquanto o balé reinava no primeiro andar. Quando a sociedade se dissolveu, mantendo a amizade intacta, os filhos a convenceram de colocar o próprio nome na fachada. Sem vaidade. Pelo contrário, por responsabilidade.

Em mais de três décadas de produção, a professora encenou mais de trinta espetáculos. De tributos aos Beatles, celebrando o Álbum Branco em “All You Need Is Love”, a museus vivos onde as alunas surgiam de dentro de pinturas de grandes artistas plásticos, a metodologia combina pesquisa cultural, logística precisa e uma rara capacidade de adaptar o repertório sem abrir mão do rigor técnico. Por fim, quando percebeu que novas gerações de mães rejeitavam o folclore assustador da Cuca, ela navegou a mudança sem ruído.

O Coração do Método e o Legado

O coração do método, porém, está longe dos holofotes. De fato, está na criança que entra na sala convicta de que seu corpo não serve para dançar e sai com a certeza oposta. Angela não ensina passos: instala autoconfiança. “Se ela é capaz de criar na dança, ela é capaz de criar em outras coisas”, define, com a precisão de quem passou décadas observando a mesma transformação acontecer em corpos diferentes, idades diferentes e histórias diferentes.

A sucessão caminha em bases qualificadas: a filha Renata Imperiano aprofundou os estudos na técnica de Rudolf Laban e traz rigor acadêmico à intuição materna. Igualmente, os netos Artur e Bruno crescem numa casa onde o movimento é língua nativa. Para Angela, aposentadoria é um conceito estranho a quem entende a vida como coreografia contínua. Por conseguinte, a questão agora é até semântica: trocar “Academia” por “Núcleo” ou “Centro de Dança”, porque o nome precisa dizer o que o espaço, de fato, faz.

Há uma lição que atravessa toda a história dela, da menina do colete à professora que lavou o rosto inchado de choro no banheiro da academia para entrar sorrindo e ensinar o plié a crianças de cinco anos, no dia seguinte ao que nunca deveria ter acontecido: a leveza não é ausência de peso. Antes, é a escolha, renovada todos os dias, de não ser esmagada por ele.

Keplinho Lafayette
Editor Executivo do Grupo Paradigma, empreende em novas ideias e novos horizontes estratégicos e operacionais através da congruência entre criatividade e imaginação.

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