Há quem trate o fogo como destruição. Mayssa Leão, contudo, o trata como revelação: o calor que expõe, na tinta acrílica, texturas que nenhum pincel alcançaria sozinho. Foi essa compreensão, lapidada entre panelas de um hotel fazenda e telas de ateliê, que a trouxe de volta à Paradigma Expressão pelo segundo ano seguido. Desta vez, para assinar a obra que cada participante desta edição recebe em mãos.
Origens Criativas e a Virada na Pandemia
A escolha nasceu da resposta: o entusiasmo com que o público acolheu seu trabalho na edição anterior convenceu a revista de que poucas vozes em Pernambuco carregam, com a mesma precisão, o que a Paradigma Expressão celebra ano após ano, um talento que se recusou a esperar permissão para existir. Cada peça sua transforma conquistas alheias em matéria incandescente, em cor que estoura sob o calor de um maçarico que ainda guarda o cheiro de cozinha.
Formada em Direito Ambiental na Universidad de Salamanca, ela tentou, por três anos, encaixar a alma criativa no molde jurídico. O molde, entretanto, não coube. Antes de tudo, a cura veio pelas mãos. Sobretudo, dez anos como chef de cozinha no engenho da família, onde o domínio do calor se tornou, sem que ela soubesse, ensaio para o que viria depois. Em 2020, grávida da terceira filha e isolada com o marido infectologista na linha de frente da pandemia. A pintura deixou de ser passatempo e virou necessidade. O maçarico saiu da cozinha e entrou no ateliê. A tinta parou de ser tinta e passou a ser evento: cada tela, única, irrepetível, nascida de uma reação química que ninguém, nem a própria artista, consegue reproduzir duas vezes.
Séries Marcantes e Consciência Ecológica
Dessa união entre rigor técnico e acaso controlado nasceram as séries que a consagraram. “Pedras Preciosas”, tributo às gemas que a fascinavam na infância, e “Cosmovisão”, em que paisagens cósmicas dialogam com a urgência climática do planeta. “Literalmente, somos feitos de poeira de estrelas”, ela já declarou, convicta de que a beleza da tela é também um lembrete de origem, uma verdade literal: átomos de carbono e ferro, nascidos em estrelas que explodiram há bilhões de anos, hoje organizados em forma de corpo e de consciência.
A formação jurídica também não se perdeu no caminho. Reaparece na instalação “Céu Artificial”. Mais de mil CDs e DVDs que questionam o descarte tecnológico, e no ateliê onde garrafas plásticas viram recipientes de tinta. A pintora que hoje expõe em Paris, no mesmo Salão dos Independentes que um dia recebeu Van Gogh, segue gerindo sozinha cada etapa da própria carreira. Comerciante, curadora e artista, nessa ordem improvável que só ela sustenta com naturalidade. Antes de qualquer salão internacional, porém, veio o gesto mais simples: pegar o pincel de volta depois de anos negando a própria vocação.
Segurar a peça assinada por Mayssa Leão nesta edição é, portanto, segurar mais que um objeto de reconhecimento. É segurar fogo contido, origem e destino na mesma superfície. Pare, respire, olhe para a obra: você está diante de alguém que aprendeu a transformar calor em permanência, e permanência em legado.


