Mentes Extraordinárias

Bill Lucena: Mentes Extraordinárias

Ao Leitor: O Mapa das Mentes Extraordinárias

O que define uma Mente Extraordinária?

Não é um único feito, um golpe de genialidade isolado ou uma conquista singular. Descobrimos, ao longo de nossa jornada editorial, que a verdadeira excepcionalidade reside na coerência entre quatro dimensões distintas, porém inseparáveis: a jornada que molda o caráter, a filosofia que guia a mente, a disciplina que move a ação e o impacto que define o legado.

Para capturar a essência completa de cada coautor presente nesta obra, não nos contentamos com uma biografia linear. Fomos mais fundo. Estruturamos cada capítulo como um mergulho em quatro atos, permitindo ao leitor não apenas conhecer a história, mas dissecar o mecanismo por trás das realizações.

Ao navegar por este livro, você encontrará cada perfil dividido da seguinte forma:

  1. Trajetória
    Aqui, estabelecemos a fundação. Esta seção é a bússola que nos situa, apresentando uma descrição pessoal e profissional que revela as origens, os valores absorvidos e os pontos de virada que forjaram a identidade do indivíduo. É o mapa de onde ele veio e quem ele se tornou.
  2. Pensar
    Esta é a arquitetura da mente. Mergulhamos no mundo interno, explorando os modelos mentais, as crenças inegociáveis e a filosofia que serve como alicerce para todas as decisões. É aqui que entendemos por que eles fazem o que fazem.
  3. Agir
    Se “Pensar” é a estratégia, “Agir” é a execução. Investigamos a ponte entre a ideia e a realidade: os hábitos, a gestão do risco, a tomada de decisão sob pressão e a disciplina diária que transforma visão em movimento concreto.
  4. Realizar
    Este é o resultado, o impacto tangível no mundo. Analisamos as conquistas não como um ponto final, mas como a manifestação de tudo o que veio antes. É a prova viva do alinhamento entre sua trajetória, seu pensamento e suas ações, consolidando o seu legado.

Ao seguir esta estrutura, convidamos você a fazer mais do que admirar; convidamos você a compreender. Bem-vindo às Mentes Extraordinárias.

1. Peregrinação: O Rigor do Barro e a Ascensão do Método

A data é 8 de setembro de 1978. Para o observador comum, era apenas mais um dia no calendário árido do agreste pernambucano. Para o jovem de quatorze anos e dez meses, vindo das entranhas do Sítio Ventura, em Frei Miguelinho, aquele era o momento da ruptura absoluta. Ele carregava o peso e a honra de uma linhagem de oito irmãos, todos moldados sob o comando de Seu Inácio e Dona Zefinha, que substituíram a impossibilidade do colégio pela inevitabilidade do valor moral. Naquele solo, aprendeu que a prece se limita ao pedido por saúde; o pão, este não se pede, busca-se. Severino Inácio de Lucena, que o mundo viria a conhecer como Bill, não fugia da escassez; ele caminhava em direção ao encontro de sua própria magnitude. Ao deixar o solo seco do interior para enfrentar a umidade salina de Recife, ele iniciava uma caminhada que não buscava o conforto, mas a descoberta da serventia de sua vontade. A sua história não é fruto de um plano abstrato, mas de uma necessidade que, ao ser trabalhada com o rigor do artesão, converteu-se em um fervor inabalável.

O primeiro cenário desta caminhada foi a Cantina Star, um santuário de tradição na Av. Conde da Boa Vista. Ali, o futuro empreendedor começou onde a substância da vida é processada: na cozinha. Descascar batatas, realizar a limpeza pesada e cumprir serviços gerais não eram punições de um destino adverso, mas o currículo prático da humildade. A necessidade impulsionava o movimento, e o movimento logo se convertia em um apetite voraz pelo ofício. Onde a maioria via apenas o peso do trabalho bruto, o jovem observador percebia a mecânica da operação. O ato de servir, para ele, era o aprendizado de ser útil. Servir com zelo, servir com pressa, servir com precisão. Esse poliptoto do serviço moldou sua coluna vertebral ética antes mesmo de ele possuir o primeiro par de sapatos de couro fino. Bill compreendeu cedo que quem domina a base do processo possui a autoridade sobre o topo. Se a cozinha era o seu laboratório, a batata era o seu primeiro mestre.

A transição da cozinha para o salão foi um movimento de pura perspicácia. Ao observar que o garçom habitava o espaço da comunicação e, consequentemente, da recompensa financeira imediata, o jovem Bill decidiu ocupar esse terreno. A sua determinação não admitia o limite do cansaço: cumpria o dever das oito às dezoito horas e, sem o amparo de qualquer salário, entregava-se ao aprendizado das dezenove horas à meia-noite. Era a troca da exaustão física pela riqueza do ofício; era a renúncia do repouso em favor da maestria. No restaurante Ilha de Kos, sob o olhar atento de Henrique e Inácio, ele aprendeu que a elegância é uma ferramenta de credibilidade. A eficiência não admite a lentidão; em escassos três meses, o aprendiz que observava as margens ocupou o centro do salão, transmutando a curiosidade em competência efetivada. O “galeguinho” de comunicação ágil não apenas servia; ele observava a disparidade entre o esforço da cozinha e a recompensa do salão, decidindo que seu lugar seria onde a palavra encontra o valor. A imagem do rapaz de dezesseis anos, trajando gravata borboleta e camisa branca alva, era a prova visual de que a dignidade não depende da origem, mas da postura.

O gesto de Henrique, ao levá-lo para confeccionar paletós em San Martin, foi o reconhecimento de um talento que já se vestia de autoridade. No entanto, a decisão de Bill de custear o terceiro paletó com os próprios recursos revela o cerne de sua mentalidade: a recusa da dependência. Ter três peças não era vaidade; era a estratégia da permanência, garantindo que a apresentação pessoal jamais fosse comprometida pela logística da lavagem. Ele já entendia que o mundo o trataria conforme a imagem que ele projetasse.

É na disciplina financeira, contudo, que reside a causalidade mais profunda de seu êxito. Durante um ano e meio, a Caixa Econômica tornou-se o altar de sua fé pragmática. Cinco depósitos semanais. O dinheiro das gorjetas, as moedas do esforço diário, não eram gastas em frivolidades, mas acumuladas como munição para um futuro ainda inominado. Bill praticava a renúncia do presente em nome da soberania do amanhã. O episódio do extrato bancário, exposto por colegas e proprietários, é o ponto de inflexão desta seção. A vergonha inicial da exposição de sua intimidade financeira transmutou-se na validação de seu poderio silencioso.

“Bill tem mais dinheiro do que eu”, afirmou o patrão, Severino Inácio da Silva, ao ver o saldo acumulado. O que era economia nas mãos do funcionário tornou-se a oportunidade nas mãos do sucessor. Aquela declaração não era apenas uma constatação numérica; era a entrega simbólica da chave do próximo reino. A poupança não era apenas capital; era o manifesto de um homem que possuía o controle sobre seus impulsos, um domínio de si que o tornava apto para o domínio do mercado. Onde outros viam um garçom, o extrato revelava um sócio em potencial.

A compra do primeiro Ilha da Kosta, em 1982, foi o ato de consolidação dessa identidade. O endereço na Rua Padre Pessoa era o destino; o saldo acumulado era o veículo; a audácia incontida era o motor. Quando o proprietário fechou as portas e o convocou para a sucessão, Bill não hesitou. Do interior ao Recife em um único dia, ele partiu da pensão na Rua da Soledade com um comando curto e absoluto ao irmão e sócio, José Inácio: “Bora comprar”. Eles não adquiriram apenas um restaurante; eles assumiram a responsabilidade de ser o mastro de suas próprias embarcações. Ao lado de seu irmão José Inácio e de um primo, ele habitou o próprio estabelecimento. Dormir no chão, sem o luxo de um colchão, em meio ao cheiro de reforma e esperança, ilustra o sacrifício que precede a glória. A reabertura em apenas setenta e duas horas sob uma faixa de “nova administração” foi o primeiro grito de uma nova era.

A nova administração não foi apenas uma troca de nomes; foi a infusão de uma disciplina que não admitia a dúvida. Bill aproveitou a equipe existente, mas impôs um ritmo que Recife ainda não conhecia. Ele percebeu que a cidade tinha fome de hospitalidade durante a madrugada e estabeleceu uma regra de ferro: o cliente saberia que o Ilha da Kosta estaria aberto, firme, acolhedor. Em 1984, o expansionismo alcançou a Rua Maria Carolina com o Ilha da Kosta II, consolidando o horário estendido como um dogma da noite recifense. Hoje, a regência de seis unidades é um coro familiar onde as vozes da esposa Jenair e dos filhos Suellen, Sueny e Bill Júnior e do irmão e sócio José Inácio e sua esposa Rosicleide e dos filhos, Renato e Marcella mantêm o tom da excelência sob a vigilância do patriarca. Esta construção encontra sua heráldica final na aquisição do casarão de cento e setenta e cinco anos na Avenida Rui Barbosa: o que começou no barro efêmero agora repousa na pedra perpétua. 

Este percurso inicial revela uma verdade fundamental sobre sua mente extraordinária: o sucesso não foi um evento fortuito, mas a consequência lógica de uma série de decisões baseadas no acúmulo. Acúmulo de técnica na cozinha, acúmulo de reputação no salão e acúmulo de capital no banco. Bill transformou a necessidade do interior na força do litoral, provando que a origem simples é o solo mais fértil para quem possui a coragem de não olhar para trás. Ele não apenas chegou a Recife; ele a ocupou, começando pela batata e terminando pelo comando.

2. Pensar: A Hermenêutica da Atenção e o Axioma da Perseverança

Se a fundação biográfica de Bill Lucena foi erguida sob o sol do agreste e a umidade das cozinhas recifenses, a sua estrutura intelectual opera sob uma lógica que desafia a volatilidade dos mercados modernos. Para compreender o motor da perspicácia que sustenta o Grupo Ilha, é preciso descer às profundezas de uma mente que não se contenta com a superfície dos números. O pensar, neste cenário, não é um exercício de abstração acadêmica, mas uma forma de oração pragmática, onde a fé e o algarismo ocupam o mesmo altar de sobriedade.

O primeiro modelo mental que rege sua psique pode ser denominado Framework da Prosperidade Granular. Esta estrutura cognitiva postula que a magnitude de um império não reside no salto audacioso, mas na sedimentação ininterrupta do pequeno. Ao depositar as gorjetas de garçom cinco vezes por semana na Caixa Econômica, o jovem Bill não estava apenas guardando papel-moeda; ele estava exercitando a capacidade de adiar o prazer imediato em favor de uma soberania futura. Essa mentalidade de “acumulação celular” define sua visão de negócio até hoje. Para ele, o sucesso não é uma explosão, mas uma soma. É a crença de que a disciplina do detalhe — o paletó limpo, a mesa posta, o centavo economizado — é a única barreira real contra o caos do desleixo.

Essa hermenêutica da atenção deságua no segundo pilar de seu pensamento: o Axioma da Presença Sensorial. Muito além do adágio popular que menciona o olhar do dono, ele desenvolveu uma filosofia de gestão baseada na onipresença. Ele não interpreta o restaurante como uma planilha de custos, mas como um organismo vivo que exige oxigenação constante. Quando afirma que circula diariamente por suas seis casas, ele revela uma necessidade de conexão táctil com a realidade. Seu pensar é indutivo: ele lê o clima do salão, o som da cozinha e o semblante do cliente para formular suas estratégias de mercado. O pensamento, portanto, não está encerrado em um gabinete; ele está distribuído entre as mesas e os fogões. A inteligência, para ele, é uma forma de vigilância afetiva.

A conexão entre a experiência do passado e a estratégia do presente é selada por uma Fé Operacional Inabalável. Herdada de seu pai, essa fé não é um misticismo passivo, mas um escudo psicológico. Esta bússola reside na herança de Seu Inácio e Dona Zefinha, onde oito irmãos aprendiam que o campo exige o suor e a alma exige a prece. Ausente de diplomas, ele obteve a graduação na retidão: aprendeu a agradecer pela saúde e a buscar o restante através do esforço. Para ele, a oração é o agradecimento pelo fôlego, enquanto a ação é a busca pelo pão. A herança de Seu Inácio e Dona Zefinha não foi contabilizada em moedas, mas em caráter; não foi escrita em diplomas, mas gravada no espírito. No rigor do Sítio Ventura, aprendeu-se que o céu concede a saúde, mas o chão exige o suor. Quando confrontado com a incerteza — seja uma crise econômica ou a paralisia de uma pandemia —, seu diálogo interno não recorre ao desespero, mas ao agradecimento. Ele opera sob o princípio de que a dúvida é apenas um convite ao aprendizado. Se o caminho se torna turvo, ele busca a luz do conhecimento, consultando especialistas e amadurecendo ideias através do diálogo. A fé, nesse sentido, funciona como um estabilizador de frequência: ela permite que a mente permaneça fria para calcular o risco enquanto o coração se mantém aquecido pela esperança.

Um terceiro modelo mental crucial é a Dialética do Equilíbrio Inegociável. Em um mundo que glorifica o esgotamento profissional, ele instituiu o cuidado com o corpo como um requisito de performance intelectual. A academia, frequentada com a pontualidade de um rito litúrgico quatro ou cinco vezes por semana, é o seu laboratório de descompressão. Ele entende que a lucidez de uma decisão depende da saúde do receptáculo que a abriga. O exercício físico é a ferramenta que recalibra sua visão, permitindo que as tensões do comércio não contaminem a clareza do julgamento. É um sistema de compensação: ele desgasta o músculo para poupar o espírito, garantindo que a longevidade de seu negócio seja sustentada pela vitalidade de sua própria biologia.

Curiosamente, Bill nutre uma desconfiança saudável pela sofisticação oca. Ele prefere a simplicidade que funciona à complexidade que falha. Sua mente é um filtro que descarta a vaidade e prioriza a eficácia. Essa postura reflete sua trajetória de quem veio do nada e, por isso, compreende o valor real de cada coisa. Ele não busca o reconhecimento pelo exibicionismo, mas pela competência. A sua criatividade não emerge do ócio, mas do confronto direto com o problema. Se uma ferramenta trava, ele inventa uma nova solução. Se o mercado retrai, ele expande o zelo.

A transição do “Pensar” para o “Agir” ocorre sem o hiato da hesitação. Para o mentor do Grupo Ilha, uma ideia sem a mecânica da execução é apenas fumaça. Ele cultiva um pensamento voltado para o futuro, planejando reformas e aquisições com a paciência de quem sabe que o tempo é um aliado, não um inimigo. Ele não corre contra o relógio; ele caminha com ele. A sua mentalidade é a de um semeador que, tendo conhecido o barro e o suor, agora maneja o capital com a mesma reverência com que manejava a batata no início de sua caminhada. O pensamento é, enfim, o plano de voo de uma trajetória que se recusa a aceitar o limite do horizonte.

3. Agir: A Pragmática da Presença e o Vigor da Atitude

Se o pensamento de Bill Lucena é o mapa silencioso de uma estratégia de sobrevivência e ascensão, a sua ação é o movimento cinético que transforma o plano em realidade palpável. No universo do Grupo Ilha, o agir não é uma decorrência passiva da reflexão; é, antes de tudo, uma manifestação de atitude. Para Bill, a ideia desprovida de execução é apenas uma abstração estéril. A sua metodologia operativa baseia-se num pilar que ele executa com uma precisão quase coreográfica: a onipresença disciplinada.

A execução da sua visão manifesta-se no ritual diário de percorrer as suas unidades. Não se trata de uma visita protocolar, mas de uma imersão sensorial. Ao circular por cinco dos seus seis estabelecimentos num único dia, ele pratica o que denomina como a manutenção do equilíbrio. Ele age onde o problema se apresenta, mas age, principalmente, onde a excelência deve ser preservada. Esse agir é pautado pelo reconhecimento de padrões: ele identifica a falha no atendimento, a oscilação na qualidade do insumo e o semblante do cliente antes mesmo que qualquer relatório gerencial chegue à sua mesa. A eficácia da sua gestão reside na redução do hiato entre a percepção e a intervenção. Ele não espera o amanhã para corrigir o que o hoje já aponta como imperfeito.

A estratégia das madrugadas do Ilha da Kosta é um exemplo pragmático de como Bill traduz a leitura de mercado em ação disruptiva. Enquanto a concorrência se recolhe, ele expande a vigília. Manter as portas abertas até às quatro ou seis horas da manhã não é um capricho operacional, mas uma ocupação tática de um vácuo de hospitalidade. Ele compreendeu que a cidade de Recife possui um metabolismo noturno que exigia um acolhimento de qualidade. Essa decisão exigiu o estabelecimento de um ritmo de trabalho que exige do corpo o que a mente já validou como necessário. Agir, para Bill, é ter a coragem de sustentar um horário que outros considerariam insuportável, transformando o cansaço alheio na sua principal oportunidade de serviço.

Essa determinação foi testada de forma radical durante o período da pandemia. Confrontado com a paralisia do comércio global, o agir de Bill voltou-se para a preservação do cerne de sua atividade. A crise não foi encarada como um sinal de recuo, mas como um período de contenção estratégica para uma posterior expansão. A sua ação foi a de honrar compromissos, de manter a estrutura viva e, sobretudo, de planejar a retomada. É nesse cenário de adversidade que a sua prudência se revela como uma ferramenta de ataque: ele age com o pé no chão para que o salto seguinte seja seguro. A aquisição do casarão na Rui Barbosa, um imóvel histórico do século XIX, em plena ressaca de uma crise mundial, ilustra essa ousadia calculada. Ele agiu para garantir a permanência, comprando o solo sob os seus pés para que a história do Grupo Ilha não dependesse mais da vontade de terceiros.

A liderança de Bill é exercida através de uma pedagogia do exemplo. Ele não comanda por decretos distantes; ele lidera pelo suor compartilhado. A sua equipe, composta por veteranos como o cozinheiro João (homem para quem Bill, no início da caminhada, fora apenas um ajudante) que o acompanha há quarenta e quatro anos, é o reflexo de um agir que valoriza a fidelidade e o treinamento contínuo. João detinha o segredo do tempero; Bill detinha o segredo do destino. O mestre de outrora tornou-se o guardião de agora, e o guardião de agora preserva a dignidade do mestre de outrora. Ele entende que a escassez de mão de obra qualificada é um obstáculo a ser transposto com paciência e instrução. A sua ação de liderar envolve delegar aos familiares. Ao lado do irmão e sócio, José Inácio e de sua esposa, Rosicleide e dos filhos Renato e Marcella, está também sua esposa, Jenair, e os filhos Suellen, Sueny e Bill Júnior — que desenvolvem funções vitais, criando um aglomerado de vigilância e afeto que multiplica a sua própria presença. Bill age através dos seus, garantindo que o “olho do dono” esteja multiplicado pela confiança do sangue.

O seu processo criativo de implementação de novas ideias é dialógico e pragmático. Bill não se fecha em convicções isoladas; ele matura os seus projetos conversando com diferentes atores do mercado, ouvindo opiniões divergentes e filtrando o que é aplicável à sua realidade. Ele desmembra o complexo em passos possíveis. A reforma do Ilha do Guaiamum planejada para 2026, por exemplo, não é vista como um evento único, mas como uma sequência de melhorias que devem ser executadas sem comprometer a estabilidade do caixa. Ele age com a sabedoria de quem sabe que o dinheiro não aceita desaforo, tratando cada investimento como uma semente que exige tempo e cuidado para frutificar.

Por fim, o agir de Bill é sustentado por um hábito inegociável: o exercício físico. Para ele, a performance no restaurante é indissociável da performance na academia. Ele age sobre o próprio corpo para que a mente tenha o vigor necessário para suportar as noites de vigília e as decisões de alta pressão. A sua disciplina de malhar quatro ou cinco vezes por semana é o que permite que, aos sessenta e dois anos, ele mantenha a mesma energia do jovem que chegou à Cantina Star. Agir é, portanto, manter a máquina humana calibrada para os desafios do mercado. Bill é a prova de que a execução da visão exige mais do que inteligência; exige uma disposição física para o trabalho que não aceita o descanso como primeira opção.

4. Realizar: A Perenidade do Essencial e a Herança do Exemplo

A culminação de uma existência pautada pela constância revela que o êxito não é um destino, mas a solidez de uma obra que respira por si mesma. Ao analisarmos o percurso que retirou o jovem Severino do anonimato rural para ser o Bill no centro da gastronomia recifense, percebemos que a sua realização consubstancia a vitória do método sobre o acaso. O itinerário que se iniciou com o rigor do barro e a limpeza das batatas converteu-se, através de uma filosofia de acumulação granular e de uma ação onipresente, na consolidação de um grupo que é hoje um marco da resiliência comercial. Realizar, para o empresário, é o ato de conferir perpetuidade àquilo que foi erigido com o suor da honestidade.

O legado que o mentor do Grupo Ilha deposita no tecido social de Pernambuco ultrapassa a métrica dos lucros ou a expansão das seis unidades. A sua assinatura inconfundível reside na democratização da hospitalidade noturna e na criação de uma estrutura que prioriza o bem-estar do cliente acima da conveniência do proprietário. O verdadeiro triunfo que ele contabiliza com orgulho não é o brilho das premiações, mas a estabilidade das centenas de famílias que encontram em suas casas o sustento e a dignidade. Ver um colaborador como João, com mais de quatro décadas de serviço, é a prova tangível de que a empresa não é apenas um negócio, mas um ecossistema de mútua lealdade. O seu feito mais notável é ter provado que é possível prosperar sem abdicar da simplicidade, mantendo o pé no chão enquanto a visão alcança o horizonte da expansão.

A definição de sucesso, para ele, é despida de qualquer vaidade exterior. Ele rejeita a opulência que busca o aplauso alheio em favor da paz que advém do dever cumprido. O sucesso é, fundamentalmente, a harmonia entre a pujança do negócio e a integridade da célula familiar. Ter uma família equilibrada, filhos disciplinados e educados para a sucessão e um nome respeitado pela conduta ética é a sua maior conquista. Ele entende que a riqueza material é um acessório volátil, mas o caráter é o patrimônio que não aceita depreciação. A sua realização íntima reside na possibilidade de deitar a cabeça no travesseiro com a tranquilidade de quem honrou cada compromisso, transformando o “olho do dono” numa garantia de respeito sagrado ao próximo.

A projeção de futuro desenha-se com a mesma calma com que ele matura suas decisões. A aquisição do casarão na Rui Barbosa, uma estrutura de 175 anos, funciona como o símbolo máximo de sua ambição de longevidade. O que é efêmero o vento consome; o que é sólido a história preserva. O casarão não é apenas alvenaria, mas a prova de que a disciplina sobrevive às gerações. Ele não olha para as suas casas com o imediatismo do lucro, mas com a paciência de quem almeja o centenário, espelhando-se em instituições que atravessaram gerações. O projeto de renovar as lojas existentes e consolidar a padaria e pizzaria nas Graças é conduzido com o equilíbrio de quem já não tem pressa para provar nada a ninguém. O foco agora é a transmissão da disciplina. O objetivo é assegurar que a próxima geração, composta por seus filhos e sobrinhos, não receba apenas um patrimônio físico, mas a compreensão de que a excelência exige presença, suor e, acima de tudo, gosto pelo que se faz.

A próxima fronteira de sua caminhada é a institucionalização da herança. Bill prepara o terreno para que a história do Ilha da Kosta continue a ser escrita por décadas, independentemente de sua presença física na linha de frente. Ele deseja que o nome de sua marca seja sinônimo de um porto seguro para o recifense, um lugar onde a tradição se renova sem perder a essência do acolhimento. A sua missão futura é atuar como o guardião da cultura organizacional, garantindo que o dom de lidar com o público permaneça vivo no DNA de cada sucessor. Ele sabe que a continuidade do negócio depende da vontade dos filhos em abraçar a ideia com o mesmo fervor com que ele a fundou, transformando o trabalho numa fonte de prazer e não apenas num fardo.

Ao encerrarmos este perfil biográfico, retornamos inevitavelmente àquela manhã de setembro de 1978. O menino que saiu de Frei Miguelinho com catorze anos e dez meses não trazia consigo ouro, mas carregava a semente de uma disciplina inquebrantável. Hoje, aos sessenta e dois anos, o empresário olha para o espelho e reconhece o mesmo “galeguinho” que ousou descascar batatas para conquistar o próprio espaço. A sua vida é a demonstração de que a mente extraordinária é aquela que consegue extrair o máximo do mínimo, que vê na rotina um rito de excelência e que entende que a verdadeira grandeza nasce da simplicidade absoluta. Bill fez valer a sua passagem por este mundo não pelo que acumulou, mas pelo exemplo de retidão que deixa como bússola para os que virão. O ciclo se completa com a certeza de que a vontade de vencer é, na verdade, a vontade de ser coerente com o próprio coração.

Keplinho Lafayette
Editor Executivo do Grupo Paradigma, empreende em novas ideias e novos horizontes estratégicos e operacionais através da congruência entre criatividade e imaginação.

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