Um dos escritórios mais movimentados da advocacia previdenciária do Recife serve, por dia, oito litros de café e quatro fardos de bolachas. Esse detalhe, aparentemente irrelevante, representa o retrato mais preciso de uma carreira. Primeiramente, Luciana de Souza Lins descobriu, antes de qualquer manual de gestão, uma realidade fundamental. Ela percebeu que a fila de quem busca um benefício do INSS carrega dentro de si uma segunda fila. Essa fila é invisível e silenciosa: trata-se da dignidade que o sistema não reconhece.
A Descoberta de um Ofício
A descoberta que definiria tudo partiu de uma vizinha. Dona Nice sofria com uma erisipela e não tinha quem a acompanhasse às agências da Previdência Social. Luciana, então secretária de um escritório jurídico, aceitou o encargo sem calcular o que viria. Ainda assim, por um ano, ela peregrinou entre agências e colheu negativas. No percurso, encontrou não apenas burocracia, mas um vácuo. Além disso, os advogados dedicavam-se aos processos judiciais. Contudo, ninguém percorria o pântano administrativo ao lado dos mais vulneráveis. As assistentes sociais das agências, percebendo a sua persistência, começaram a pedir que ela ajudasse a preencher formulários dos outros. A despachante improvisada, enfim, havia achado seu ofício.
O primeiro benefício que ela conseguiu rendeu uma gratificação espontânea de um salário mínimo. Aquele dinheiro não era apenas pagamento. Era, sobretudo, a confirmação de que sua habilidade de decifrar o sistema, somada à compaixão, tinha um valor que ninguém havia medido antes. A partir dali, ela buscou ativamente as pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade sob o viaduto do Cabanga. Ela não apenas preenchia papéis; ela organizava vidas. Providenciava banho, tirava documentos de identidade e CPF e levava os necessitados ao INSS. Em menos de um ano, esse método de assistência integral foi responsável pela aposentadoria de mais de mil pessoas.
Ruptura e Propósito
Em 2019, no auge de um sucesso financeiro que ela mesma descreve como “absurdo”, nasceu seu filho, Pedro Lucas. O apartamento em Boa Viagem, sonhado e conquistado, deveria ser o sinal definitivo da vitória. Foi, em vez disso, o segundo ponto de ruptura. Pedro Lucas recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, e o apartamento mostrou-se inadequado para suas necessidades. A dor daquele momento foi, ela relata, libertadora. Em sua leitura, o filho chegou para que o dinheiro não se tornasse um fim em si. Ele veio para devolvê-la à missão original. Ela mergulhou nos estudos sobre autismo, cursou psicanálise e passou a defender tratamentos com a mesma tenacidade que usara nos corredores do INSS. “Uso a dor como propósito”, afirma.
Psicanalista e Bacharel em Direito com duas pós-graduações em Direito Previdenciário e Gestão, Luciana comanda o Lins Advogados sem nunca ter passado pelo exame da OAB. A autoridade que ela exerce veio do campo, não da carteira. O critério que aplica à equipe resume o que aprendeu ao longo desse percurso: “A gente contrata caráter; técnica, a gente explica”. A abertura do escritório em Vitória do Santo Antão seguiu o mesmo método. Sem pesquisa de viabilidade, ela sentiu o impulso ao ver uma sala disponível e, no mesmo fim de semana, adquiriu uma casa de apoio na região. A gestão convencional chamaria isso de imprudência. Ela, contudo, chama de obediência.
Acolhimento e Transformação Social
Pioneira em instalar área de lazer completa para crianças dentro da recepção, a bacharel ergueu o protocolo sobre um raciocínio direto. O acolhimento da criança é fundamental para a calma da mãe. O próximo passo, em gestação, é um “núcleo” no Cabanga, na casa onde ela mesma morou. Esse espaço será dedicado ao cuidado de mães atípicas, oferecendo apoio psicológico, salão de beleza e manicure. O objetivo é restaurar a dignidade por dentro e por fora.
Quando uma mãe atípica lhe disse que ela não poderia saber o que era procurar um biscoito para o filho e não ter, Luciana não respondeu com consolo. Pegou a mulher e foi ao INSS. O benefício estava travado em outro estado. Ela viajou, localizou o servidor no interior da Bahia, despachou pessoalmente e trouxe a concessão. “Transformar vidas daqueles que gritam pelo pedido de socorro e a justiça não chega” é como define seu trabalho. Sua fórmula de sucesso, dita com a concisão de quem não precisa de ornamentos, é clara: “Insistência. Insistir. E acreditar”.



