Existe uma matemática particular nas trajetórias de quem constrói caminhos onde outros veem muros. De fato, para Tallyta Bione, que preside pela terceira vez consecutiva a Associação dos Advogados Previdenciaristas de Pernambuco (AAPREV), essa equação sempre teve uma variável fundamental: o “não”. Não como barreira, mas, ao contrário, como combustível. Não como fim de linha, mas como ponto de partida para uma jornada que a levaria do sertão pernambucano ao centro do debate previdenciário nacional.
A história que ela conta hoje, sem rodeios ou eufemismos, é a de uma profissional que transformou cada recusa em degrau. “Acredita que eu já recebi ‘não’ da OAB e ‘não’ de alguns dirigentes da AAPREV?”, questiona. A pergunta ecoa com o peso da ironia histórica. Afinal, esses “nãos” não vieram de desconhecidos ou concorrentes, mas de instituições onde hoje sua presença é central, quase natural aos olhos de quem não conhece os bastidores.
Os Desafios Como Ponto de Partida
Primeiramente, o grande “não” chegou ainda no início de sua trajetória. Naquela época, um e-mail enviado à Comissão de Seguridade Social da OAB foi respondido com uma barreira clara. Para participar, era necessário possuir “notório conhecimento” na área previdenciária, algo que julgaram que ela não possuía. Posteriormente, o segundo “não” veio anos mais tarde, na própria AAPREV. Nesse sentido, sua ascensão à presidência ocorreu sem o apoio de antecessores que não enxergavam nela o perfil necessário para liderar a associação.
No entanto, a resposta para essas portas fechadas não foi o desânimo ou a conformação. Pelo contrário, foi a ação metódica e a construção de um lema que se tornaria visível nos resultados: “meu trabalho fala por mim”. E, de fato, ele falou alto. Como resultado, o que se seguiu foi uma construção resiliente e estratégica, onde cada conquista se tornava prova tangível de sua competência.
Da Semeadura à Colheita: A Construção de uma Carreira
Formada em 2007, Tallyta experimentou duas sociedades que não prosperaram antes de encontrar seu caminho definitivo. Durante esse período de busca, conciliou o trabalho na Secretaria de Agricultura com o sonho do próprio escritório. Assim, vivenciou aquilo que ela define como um “período de semeadura intensa”.
“Advocacia é plantio e sei que estou colhendo o que platei bem”, reflete. Em outras palavras, ela resume uma filosofia de trabalho baseada na paciência estratégica e na qualidade consistente. Essa colheita se materializa hoje de forma robusta e tangível.
Ao lado de sua sócia, Conceição Trajano, comanda o Tallyta Bione Advogados, com sede em Santo Amaro, uma filial no bairro do Ibura e na cidade de Olinda. Certamente, a expansão não é casual, mas reflexo de uma demanda que cresce junto com o reconhecimento de sua expertise na área previdenciária.
Das Origens à Liderança Natural
A menina que saiu de Salgueiro, no sertão pernambucano, em 2001, para estudar Direito no Recife, carregava como principais ativos a honestidade e a dedicação herdadas dos pais. Apesar disso, a mudança para a capital representou um desafio existencial. A faculdade, contudo, se provou uma “verdadeira escola” não apenas de conhecimento jurídico, mas também de vida e de articulação.
Foi durante a graduação, já exercendo o papel de representante de turma, que ela demonstrou sua capacidade natural de liderança e articulação. Ali, em meio a estágios e descobertas acadêmicas, definiu seu caminho: a advocacia, em detrimento dos concursos públicos que atraíam muitos de seus colegas.
Inovação e Liderança Feminina na Advocacia
Questionada sobre sua maior inovação profissional, Tallyta foi categórica. Ela afirmou: “Enfrentar os desafios em uma profissão majoritariamente masculina e mostrar para as colegas que é possível se posicionar, se destacar e fazer a diferença na nossa profissão”.
Essa declaração não é apenas uma frase de efeito ou um discurso politicamente correto. Em suma, é o resumo concreto de uma atuação que desafia padrões estabelecidos e abre caminhos para outras profissionais. Em um ambiente onde a presença feminina em posições de liderança ainda enfrenta resistências, sua trajetória se torna um exemplo prático de que é possível romper barreiras através da competência e da persistência.
Reconhecimento e Posições de Destaque
O reconhecimento por esse trabalho diferenciado veio por diversas vias. Por exemplo, recebeu moções de aplauso da Câmara de Vereadores do Recife, a Medalha Tobias Barreto da Academia Olindense de Letras Jurídicas e o prêmio Myrthes Gomes de Campos, uma honraria da OAB Olinda que destaca profissionais que contribuem para o desenvolvimento da advocacia.
Atualmente, ela ocupa uma posição única. É a única advogada mulher especialista em Direito Previdenciário a integrar o prestigiado Instituto dos Advogados de Pernambuco (IAP), uma instituição centenária que reúne os principais juristas do estado. Além disso, coordena turmas de pós-graduação, disseminando o conhecimento que um dia lhe disseram faltar.
Transformando Desafios em Conquistas
A ironia da história se completa quando observamos sua posição atual. Por exemplo, aquela jovem advogada a quem disseram não possuir “notório conhecimento” em Direito Previdenciário agora forma outros profissionais na área. Da mesma forma, aquela que não recebeu apoio para chegar à presidência da AAPREV hoje lidera a principal associação de advogados previdenciaristas do Brasil pelo terceiro mandato consecutivo.
Essa transformação não foi apenas pessoal, mas também profissional e social. Tallyta não apenas conquistou espaços; ela os redefiniu, criando novos padrões de liderança e, principalmente, abrindo portas para outras mulheres na advocacia previdenciária.
A menina de Salgueiro que enfrentou o desafio de estudar na capital hoje é a profissional que transforma desafios em degraus. Ela converte ceticismo em motivação e prova, através de resultados concretos, que a competência não conhece gênero, origem ou limitações impostas por terceiros.
Sua história é uma aula prática de como transformar cada “não” em combustível para um “sim” mais potente, mais consistente e mais duradouro. Por fim, Tallyta Bione descobriu que o poder do “não” não está em limitar, mas em desafiar. E ela aceitou cada um desses desafios, celebrando hoje os frutos de um trabalho que fala, inquestionavelmente, por si mesmo.

Revista Paradigma Jurídico Ed. IV págs. 70/71 – Agosto 2025.





