Eduardo Pugliesi possui uma trajetória que se recusa a ser singular. Vê-lo hoje na cadeira de desembargador e vice-presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região é observar apenas o capítulo mais recente de uma vida dedicada a múltiplas formas de realização. Sua vida profissional é, portanto, uma sobreposição de identidades: advogado por 21 anos, professor por 15 e magistrado há quase uma década. Esta pluralidade, contudo, encontra sua origem não nos salões acadêmicos, mas na urgência da necessidade e na paisagem árida do Pajeú, de onde vem a linhagem materna. Pernambucano do Recife, ele carrega o que chama de estado de espírito sertanejo, uma raiz profunda em Sertânia, Afogados da Ingazeira e Iguaraci. Conforme relata, ele é parte dos clãs Gomes, Lopes e Lafayette.
Do Empreendedorismo Infantil à Advocacia
A história começa com um obstáculo primário: a perda do pai aos dois anos de idade. Sua mãe, Yolanda, professora da rede estadual, viu-se, então, com a responsabilidade de criar cinco filhos com um único salário. “Sempre foi tudo muito, muito difícil”, recorda Pugliesi. Essa dificuldade aguçou um senso de pragmatismo. Aos 15 anos, com o orçamento familiar apertado, ele decidiu empreender. Primeiramente, adquiriu uma carrocinha e tornou-se “barraqueiro” na praia de Boa Viagem, vendendo cerveja, sanduíches e guaraná. O lucro dessa primeira iniciativa financiou a segunda: um carrinho de cachorro-quente posicionado estrategicamente em frente ao Colégio Contato, onde cursava o terceiro ano. Entre as aulas, ele supervisionava o faturamento, já empregando um funcionário.
Essa veia empreendedora, essa capacidade de “realizar coisas”, foi abruptamente canalizada para outro campo. Isso ocorreu quando ele foi aprovado no vestibular de Direito da Universidade Federal de Pernambuco. Ele largou o empreendedorismo informal e, aos 23 anos, recém-formado, tomou uma decisão definidora. Em vez de buscar emprego, seguiu para o empreendedorismo formal, abrindo seu próprio escritório com três colegas de faculdade (André Coutinho, Carlos Neves e Renato Canuto), em 1995. Paralelamente, iniciou uma carreira no magistério, lecionando Direito Civil. A advocacia floresceu por mais de duas décadas, com um escritório muito bem organizado e consolidado. Ademais, seus sócios permanecem amigos até hoje.
Reconfiguração de Prioridades
Contudo, um ponto de inflexão dramático ocorreu aos 33 anos. Recém-chegado de Portugal, onde concluíra um mestrado em Direito Constitucional, levando a esposa, Mariza, e as duas filhas pequenas (Camila e Manuela), ele enfrentou um susto monumental: a necessidade de implantar três stents coronarianos. O evento, ocorrido há 20 anos, dividiu sua vida.
A experiência foi tão profunda que gerou um livro de sua autoria, “Três Stents e Uma Lição”. Foi somente após essa reconfiguração de prioridades que ele intensificou sua atuação pública. Por exemplo, sendo eleito vice-presidente da OAB-PE na gestão de Jayme Asfora e presidindo uma comissão no Conselho Federal da OAB.
A Transição para a Magistratura
Esse novo ânimo o levou a uma das decisões mais complexas de sua vida: disputar o Quinto Constitucional. Ele deixou para trás 21 anos de advocacia privada para abraçar o universo completamente incerto da magistratura. Em 10 de maio de 2016, foi nomeado Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região.
Ele atribui seu diferencial a uma combinação de intuição aguçada, enorme capacidade de trabalho e escuta, e uma disciplina extrema. “Eu sou muito intuitivo”, afirma. Essa assertividade, que ele diz não conviver com a incerteza, é balanceada com o hábito de se cercar de pessoas honestas, preparadas e leais.
Viver o Presente e o Legado Familiar
Quando questionado sobre o futuro, ele o rejeita. Igualmente, rejeita pensar na morte ou na aposentadoria. “Vivo intensamente o presente”, declara. Seu foco está em “acrescentar vida aos anos” e ver suas filhas, ambas advogadas seguindo os passos da família, crescerem. A maior realização, para ele, não são os cargos, mas a família que construiu ao lado de Mariza, com quem divide 31 anos de união. O refúgio para processar decisões complexas não está nos autos, mas no “mato” da sua casa em Gravatá, sua terapia e ponto de paz. Sua casa, acessível por 2,5 quilômetros de estrada de barro, é onde ele se reconecta com a natureza. Foi nesse refúgio que ele comemorou a histórica vitória na OAB em 2006, quando a oposição venceu pela primeira vez em 75 anos.
Seu legado, ele afirma, é a vida que vem construindo, baseada em estudo, trabalho e ética. Além disso, é ver suas filhas, Camila e Manuela, ambas advogadas, trilhando seus próprios caminhos. Camila, por exemplo, agora preside o Instituto Egídio Ferreira Lima, fundado e presidido por ele durante oito anos.
A Essência da Intelectualidade Pernambucana
Eduardo Pugliesi honra Pernambuco por condensar em sua biografia a resiliência do sertanejo que supera a perda, a criatividade do recifense que empreende na dificuldade e a sofisticação intelectual do jurista. De fato, ele se afasta de uma especialização única para abraçar uma formação humanística ampla.
Nesse aspecto, sua trajetória reflete diretamente os homens que aponta como seus maiores exemplos. Ele não consegue escolher apenas um. Dessa forma, cita dois gigantes pernambucanos: Gilberto Marques Paulo e Egídio Ferreira Lima. Pugliesi, que foi chefe de gabinete do primeiro na Prefeitura do Recife e fundou e presidiu o instituto que leva o nome do segundo, vê neles o mesmo perfil: homens plurais. Ambos foram advogados, professores universitários e parlamentares. Além disso, eram donos de uma formação humanística profunda e de uma integridade ética. Por conseguinte, Eduardo busca esse modelo como seu próprio legado. Ao seguir este modelo de atuação múltipla, combinando o labor, o estudo e a ética, ele perpetua uma linhagem de serviço público que define a essência da intelectualidade pernambucana.






