Hailton Gonçalves da Silva pratica uma magistratura de tradução, onde a gramática do cuidado pastoral decifra o rigor dos códigos legais. Sua trajetória converteu a aspereza do sertão baiano em um raro humanismo para os tribunais de Pernambuco, estado que elegeu para edificar uma vida improvável.
Origem Modesta e a Força da Educação
Filho de uma feirante paraibana, Raimunda Gonçalves, e de um agricultor da Bahia, Luiz Francisco, ele fez da origem modesta a força motriz de sua jornada. Nascido em Santaluz-BA, sua infância foi dividida entre o labor em uma cordoaria e a dedicação aos livros. Na juventude, lecionou datilografia e atuou como secretário em uma construtora. Contudo, sempre considerou a educação como o único caminho para um destino distinto.
Da Dupla Graduação à Advocacia Pastoral
Após o magistério, elegeu o Recife como o lugar para expandir seus horizontes. Essa foi uma decisão que o levou a uma proeza intelectual singular. De fato, graduou-se simultaneamente em Teologia, pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, e em Direito, pela Universidade Católica de Pernambuco.
O que se seguiu foi uma década de existência anfíbia. De abril de 1989 a janeiro de 2000, após ser aprovado na OAB-PE, ele equilibrou a liderança espiritual no púlpito da Igreja Evangélica Batista em Peixinhos, Olinda, com a militância na advocacia. Nesse período, aprendeu a auscultar os conflitos com a sensibilidade de quem ampara. Essa habilidade, portanto, se tornaria a assinatura de sua futura atuação.
A Sabedoria Ampliada no Tribunal de Justiça
Ao ingressar no Tribunal de Justiça de Pernambuco em 14 de fevereiro de 2000, não houve uma ruptura. Pelo contrário, houve a aplicação dessa sabedoria em escala ampliada.
Como juiz, seu percurso o levou a servir nas comarcas de Verdejante, Salgueiro, Cachoeirinha e, atualmente, João Alfredo. Sua busca por aprimoramento é contínua. Por exemplo, ele concluiu o Mestrado em Direito aos 63 anos. Esse desafio foi abraçado sem se afastar de suas funções como magistrado e professor na FACAL e, recentemente, na UNINASSAU Carpina.
O Legado do Humanismo na Justiça
Ele honra Pernambuco ao introduzir no sistema de justiça uma sensibilidade que não se aprende nos manuais. Desse modo, demonstra que a verdadeira autoridade não emana apenas da lei. Pelo contrário, ela provém da capacidade de enxergar a história de vida por trás de cada processo, cumprindo sua filosofia de ser “justo, mas também humilde e humano”.
Sua obra dialoga com a de Dom Helder Câmara. Se o arcebispo usou o peso da Igreja para dar voz aos esquecidos, Hailton utiliza a estrutura do Judiciário para garantir que a justiça tenha sempre um semblante humano. Em suma, prova que a compaixão pode ser o mais exato dos veredictos.






