Nomes que Honram Pernambuco

REFENO: A Maior Regata Oceânica da América Latina e o Espírito Marítimo de Pernambuco

Setembro transforma o Recife. A Bacia do Pina e o Marco Zero, repletos de espectadores, convertem-se no palco de partida para um dos maiores desafios náuticos do planeta. O som da Banda de Música da Marinha saúda as velas de quase uma centena de embarcações. À frente, 300 milhas náuticas (560 quilômetros) de Atlântico aberto até Fernando de Noronha. Este evento anual é, além disso, mais que uma competição; é a insígnia máxima da alma marítima pernambucana. Por conseguinte, torna-se um poderoso veículo que leva o nome do estado ao cenário global. A sua capacidade de projetar Pernambuco é, em si, uma honra ao território que a concebeu.

A Gênese da Regata: De 1986 a 1947

A história oficial data de 27 de setembro de 1986. Naquela edição inaugural, idealizada por Maurício Castro, 22 veleiros partiram, dos quais dois eram estrangeiros. Muitos navegavam, ainda assim, numa era pré-GPS, dependendo dos astros para determinar sua rota. Era a pura mítica Regata Recife Noronha.

Contudo, para compreender a essência da REFENO, é preciso retroceder a 1947, na gênese do seu organizador, o Cabanga Iate Clube de Pernambuco.

O Cabanga e a Libertação Náutica

A fundação do Cabanga é a chave da vocação oceânica do estado. Conforme relata o livro “Cabanga 75 anos”, o clube nasceu de uma dissidência do Iate Clube do Recife, então localizado no bairro da Torre, às margens do Capibaribe. O obstáculo era geográfico e definidor da identidade da cidade: as famosas pontes do Recife, que dão à capital o apelido de Veneza Brasileira, impediam o acesso ao mar para veleiros com mastros altos. A criação do Cabanga, na Bacia do Pina, foi um deliberado ato de libertação náutica.

A REFENO, hoje, é a consequência direta desse espírito. Por fim, a partida no Marco Zero, de frente para o oceano, é a vitória simbólica final sobre as pontes.

O Desafio: Velocidade, Estratégia e o “Pirajá”

A travessia não é um passeio. É considerada por muitos velejadores o seu primeiro grande desafio em sua carreira na vela oceânica de cruzeiro. A distância exige uma combinação de velocidade, estratégia e resistência, numa prova que pode durar de 33 a mais de 53 horas de superação e trabalho em equipe.

A batalha tática para desafiar as correntes e ventos do Atlântico encontra seu teste mais particular num fenômeno local: o “pirajá”. Não se trata de um temporal comum. São chuvas tropicais que criam zonas de calmaria, com ventos fracos ou nulos, geralmente à noite e na madrugada. No auge do cansaço, na escuridão total, um barco pode parar subitamente. Assim, assiste impotente aos competidores que escapam da zona de influência.

Segurança e Padrões de Excelência

A Capitania dos Portos de Pernambuco (CPPE), da Marinha do Brasil, é um pilar do evento. Ela realiza a inspeção rigorosa de coletes, balsas salva-vidas, extintores e documentação. A organização do Cabanga exibe uma seriedade proativa. Após o acidente com o “Nativo” em 2014, por exemplo, antecipou a exigência do dispositivo de emergência EPIRB 406Mhz, um transmissor de localização via satélite, para garantir ainda mais segurança. A conquista do “Troféu Fita Azul”, dado ao primeiro a cruzar a linha, é um atestado de excelência, não de sorte.

REFENO: Um Gigante Latino-Americano

Dos 22 pioneiros, a REFENO tornou-se um gigante. Edições recentes chegam a 100 barcos e a regata atingiu um recorde de mais de 140 inscritos em 2004. Embora seja chamada de a maior regata oceânica do Brasil, seu status real transcendeu. Veículos nacionais a classificam como a maior regata oceânica da América Latina.

A percepção se sustenta nos fatos. Suas 300 milhas náuticas superam outras provas continentais, como as 167 milhas do circuito Rolex. A 36ª edição, em 2025, solidificou essa posição. Foram 100 embarcações inscritas, 833 velejadores de 16 estados e quatro países (Argentina, Austrália, Dinamarca, Espanha). O ano celebrou um recorde de 28% de participação feminina. Além disso, após 21 anos, viu uma tripulação 100% feminina, o “Pura Vida”, da comandante Carla Lopes.

Espírito, Confraternização e o “Mister Refeno”

O que distingue a REFENO é seu espírito. É um ponto de encontro de amigos. A prova disso está nas premiações. Há troféus para o tripulante mais jovem, o mais velho, e o barco com maior percentual de mulheres. E há o “Troféu Tamar”, destinado ao penúltimo colocado. É a alma pernambucana injetada no esporte: a celebração da jornada e da confraternização.

Essa alma tem um nome: Emílio Russell. O “Mister Refeno”, tripulante do Papangu (PE), foi homenageado em 2025 por um feito singular. Ele esteve presente em todas as 36 edições. Sua dedicação e paixão são o exemplo vivo do espírito da prova.

Plataforma de Soft Power e Legado

A maior honra prestada pela REFENO é sua capacidade de atuar como plataforma de soft power. Para isso, ela une os dois principais ativos de imagem do estado. A regata cria uma ponte narrativa entre o Recife (Marco Zero, cultura) e Fernando de Noronha (Mirante do Boldró, paraíso ecológico).

O Comodoro Altair Júnior definiu o modelo de gestão como uma regata feita a quatro mãos. O Governo do Estado (Empetur), que vê o legado e a visibilidade; o Cabanga, a alma náutica; a Marinha, o pilar da segurança; e a sociedade pernambucana, que lota o Marco Zero e transforma a partida numa festa popular. A regata movimenta o turismo e a economia nas duas pontas, levando também ações sociais e médicas a Noronha.

Após dois dias de batalha, os veleiros cruzam a linha no Boldró, recebidos por golfinhos. Assim, a REFENO cumpre seu ciclo, reafirmando a vocação marítima de Pernambuco. Ela prova que a determinação que um dia buscou fugir das pontes para alcançar o mar hoje fomenta as conexões mais importantes, ligando o estado ao mundo. Inclusive, há um ditado popular entre os velejadores brasileiros dizendo que existem aqueles que já fizeram a REFENO e que existem aqueles ainda não fizeram mas que têm muita vontade de fazer.

A REFENO e o Poema de João Cabral

A trajetória da REFENO guarda paralelos com a obra de João Cabral de Melo Neto. Se o poeta dissecou em “O Rio” a geografia do Capibaribe, constrangido pelas pontes e pela cidade, a REFENO é a ação que completa esse poema. Em outras palavras, é a libertação náutica que os fundadores do Cabanga buscaram, a superação física da barreira que o poeta tão bem definiu. Por fim, transforma a relação de Pernambuco com o oceano em sua maior celebração global.

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