Mirna Rezende da Rocha Cavalcanti pinta o que nenhuma academia teria como ensinar. Formada em Administração de Empresas e em Teologia, ela construiu durante décadas uma existência de múltiplos ofícios: contadora, professora, comerciante. Sobretudo, viveu uma rotina acelerada e acumulada, até que o corpo, esgotado por jejuns extremos, impôs uma parada absoluta. Aos trinta anos, reduzida a quarenta quilos, foi naquele silêncio forçado que o dom de uma vida inteira encontrou, finalmente, espaço para se manifestar.
Mirna Rezende da Rocha Cavalcanti: O Pacto e a Criação dos Ícones
Em primeiro lugar, sem aprovação no vestibular de Belas Artes, ela fez um pacto. Pediu que Jesus lhe ensinasse a pintar, prometendo dedicar a arte inteiramente a quem a guiasse. Três dias depois, sem instrução formal alguma, surgiu um São Francisco com domínio de rosto, mãos e luz que estudantes de academia levariam cinco anos para alcançar. O pacto havia sido aceito e selado.
Nesse sentido, a técnica que desenvolveu não tem paralelo. Ela mancha a tela de joelhos, com bucha natural e tintas a óleo levadas quase ao ponto de aquarela. Pressiona um papel sobre a superfície úmida e ao separar o papel, devagar, o que se revela não é abstrato. São figuras, são rostos, são cenas. Sua amiga de fé Denise Queiroz ajudou a confirmar o que a artista já intuía. As impressões vinham do Anjo Gabriel, um evangelho vivo gravado em mancha e silêncio. Mais de mil ícones distribuídos pelos cinco continentes carregam passado, presente e lampejos do que ainda está por vir.
A Expansão da Obra e da Fé
A obra transborda a tela. Pela oração, a artista intercedeu por casais que não conseguiam ter filhos, e eles chegaram. Na Muribeca, onde a autora do livro “Uma janela que se abre para o invisível” afirma que o céu está permanentemente aberto. Ergueu em trinta dias o Santuário da Santíssima Face de Deus, com recursos que apareceram à medida que a obra avançava, vindos de pessoas que ela mal conhecia. Escritora do livro “Você Pode, Você Consegue”, ela deposita na escrita o mesmo cuidado que deposita na tela: a convicção de que palavra e imagem, quando vêm do lugar certo, levantam quem caiu.
Em suma, Mirna da Santíssima Trindade prova que há formas de criação que a técnica não alcança, que o talento não explica e que o tempo, por mais que passe, não esgota.

