Havia, em frente ao Colégio Contato, uma carroça de cachorro-quente. Por trás do balcão, o proprietário cursava o terceiro ano do ensino médio, geria um funcionário e reinvestia o lucro com a disciplina metódica de quem sabe que a necessidade é, antes de tudo, uma professora. O jovem se chamava Eduardo Pugliesi. Com efeito, a carroça foi o primeiro problema resolvido de uma vida longa em soluções.
A lógica nasceu antes da consciência. O pai morreu quando Eduardo tinha dois anos. Sua mãe, Yolanda, professora da rede estadual, sustentou cinco filhos com um salário. A escassez, naquele endereço de Boa Viagem, não era discurso. Pelo contrário, era o cardápio da semana. Ao chegar aos 15 anos com desejos de consumo e um orçamento curto, ele não esperou. Comprou uma “carrocinha” e, com um primo, passou a vender cervejas, sanduíches e guaraná nas proximidades do Edifício Acaiaca. O lucro não foi para o consumo, mas para o capital seguinte: a carroça de cachorro-quente em frente ao próprio colégio. Ali gerenciava o ponto, o funcionário e o faturamento, tudo isso aos 15 anos.
Eduardo Pugliesi: A Formação Acadêmica e o Primeiro Escritório
Essa capacidade de transformar fricção em ação, aprendida antes de qualquer teoria, encontrou direção na Faculdade de Direito da UFPE. Três anos no escritório de Antônio Henrique Wanderley foram a escola prática: formação sólida, orientação precisa e o rigor aprendido de perto. Contudo, o instinto de autonomia nunca se calou. Em 1995, com 23 anos, Eduardo se juntou a três colegas: André Coutinho, Carlos Neves e Renato Canuto. Compraram uma casa na Rua do Sossego e inauguraram o escritório que seria sua base por 21 anos. Não foi uma aposta imprudente. Pelo contrário, foi a aplicação, já madura, do mesmo método da carroça: calcular o risco, reunir os parceiros certos e dar o passo.
O escritório consolidou-se, a advocacia cresceu e a cátedra de Direito Civil veio junto. O percurso parecia encerrado na estabilidade. Até que, em 2004, recém-chegado de Portugal — onde concluíra o mestrado com a esposa Mariza e duas filhas de menos de cinco anos —, um diagnóstico coronariano interrompeu tudo. Três stents. O evento, que ele descreveria no livro “Três Stents e Uma Lição”, não foi apenas uma intervenção médica. Em outras palavras, foi uma recalibragem de prioridades, daquelas que só acontecem quando a vida apresenta a conta sem aviso.
A Recalibragem de Prioridades e a Chegada ao Tribunal
A lição foi mais precisa do que qualquer acórdão: o tempo não se peticiona de volta. Aquele que havia passado a primeira metade da vida transformando escassez em disciplina decidiria passar a segunda transformando disciplina em vivência. A estabilidade financeira, já conquistada, deixou de ser o destino. Tornou-se, com efeito, a plataforma. E a plataforma, nesse caso, era sólida o bastante para suportar uma nova construção.
A confirmação desse reordenamento de prioridades veio 12 anos depois, quando Eduardo Pugliesi tinha 44 anos, um escritório consolidado e duas décadas de advocacia bem-sucedida. A decisão de candidatar-se ao Quinto Constitucional do Tribunal Regional do Trabalho foi recebida com ceticismo geral. “Todo mundo me achava maluco”, recorda, com a calma de quem distingue ousadia de imprudência. O risco calculado não era sobre o cargo, mas sobre sua própria capacidade de ser feliz no propósito novo, como ditado pela lição dos stents.
Liderança e Legado
Atualmente Desembargador no TRT, Eduardo organiza sua visão de liderança em três pilares: “Exemplo, ternura e coragem.” A ternura, que pode soar deslocada numa corte, é, na prática, a escuta que precede a decisão: a capacidade de ouvir a equipe, a família e os que sabem mais. A coragem é a disposição de decidir quando a informação nunca é completa. Além disso, o exemplo é a trajetória inteira, da carroça ao tribunal, percorrida com a mesma metodologia. “Trabalho, foco e disciplina”, resume. Para o Desembargador, o talento inato é secundário. Desse modo, um indivíduo disciplinado, ele sentencia, vai chegar onde quiser.
Em suma, o epitáfio que ele mesmo reservou para o descanso em Gravatá, embaixo de um pé do Joá, sintetiza o método melhor do que qualquer cargo: “Aqui descansa uma pessoa feliz que viveu a vida intensamente.” A frase não é vaidade. Por fim, é a assinatura de um fazedor.



