Em 1983, Ronald Cavalcanti desembarcou em Porto Rico sem dominar o espanhol. Quarenta anos depois, mais de setecentos oftalmologistas formados pela Fundação Altino Ventura carregam pelo Brasil o que ele absorveu naquele período. Antes de tudo, adquiriu a certeza de que a medicina de excelência não nasce do talento individual, mas da construção coletiva.
A temporada na Universidade de Porto Rico, sob a orientação do Dr. José Berrocal, não foi apenas uma residência. Com efeito, foi o laboratório onde Ronald Cavalcanti aprendeu a traduzir mundos. Num ambiente em que a ciência era escrita em inglês e a prática exercida em espanhol, tornou-se intérprete, e a função foi mais simbólica do que linguística. Ao circular pelos corredores do Bascom Palmer e do Johns Hopkins, decodificou não apenas técnicas cirúrgicas, mas também modelos de gestão. Desse modo, compreendeu o modo como a eficiência americana nascia da logística, com o paciente chegando ao médico já mapeado, triado e preparado.
O Retorno ao Recife e a Revolução no Atendimento
O retorno ao Recife representou uma missão de transplante. O médico percebeu, em seguida, que o consultório isolado e estático constituía um desperdício de tempo e competência. Ao substituí-lo pelo atendimento em ilhas de especialidade, com triagem qualificada e pré-exame estruturado, a produtividade subiu trinta por cento. Como resultado, a tecnologia foi ao encontro do paciente, e não o contrário.
Ronald Cavalcanti: A Fundação Altino Ventura e a Obra Coletiva
Contudo, a reforma do processo representou apenas metade do projeto. No mesmo ano em que ergueu o HOPE (Hospital de Olhos de Pernambuco), Ronald fundou a Fundação Altino Ventura. Ambos os movimentos revelam a simetria moral de uma trajetória que recusou o êxito privado como destino final. A motivação era direta: impedir que um pernambucano precisasse peregrinar até São Paulo para aprender a ser oftalmologista de ponta. Nos primeiros sete anos, capital privado sustentou uma estrutura de ensino que hoje é colosso do SUS e da formação médica.
A obra foi coletiva desde o princípio. Ao lado do pai, Inácio Cavalcanti, da esposa Elani e de Altino e Marcelo Ventura, o grupo construiu o que o fundador define com precisão. Em suma, trata-se de “uma obra de basicamente quatro mentes, mas regidas por um pensamento único.”
Ronald Cavalcanti: Qualidade, Gestão de Risco e Desapego Estratégico
A busca por padrões de qualidade foi além do equipamento cirúrgico. A implementação das certificações ONA e Qmentum exigiu uma virada cultural: o fim da infalibilidade médica como dogma. “Não se bota a poeira para debaixo do tapete”, define Ronald. Notificar erros virou protocolo. O HOPE passou a aprender com os próprios erros, criando um ciclo de autocorreção que poucos hospitais privados do Brasil chegaram a implementar.
A gestão do risco seguiu a mesma lógica. Antes de erguer qualquer nova unidade, percorria mentalmente a experiência do paciente do estacionamento à cadeira de exame. Calibrava o projeto pela acessibilidade, física e financeira, do usuário mais humilde. “Não adianta fazer uma clínica belíssima se você não tem a possibilidade de acesso”, resume. Procedimentos de alta rentabilidade financiaram especialidades deficitárias, como a oftalmologia pediátrica e o tratamento do câncer ocular. Desse modo, esse equilíbrio sustentou a Fundação por décadas.
Aos setenta e dois anos, o movimento mais sofisticado de sua carreira consistiu no desapego calculado. Ao integrar o legado à Vision One, rede nacional, Ronald garantiu que o padrão criado não dependesse de sua presença para continuar funcionando. Demitiu-se da administração para reencontrar a vocação original. Os filhos Bernardo e Cecília escolheram, por conta própria, seguir a especialidade. Beatriz atua na gestão. A sucessão não foi cobrada: foi atraída.
Atualmente, o consultório e a sala de cirurgia representam o destino que o médico traça para os próximos anos. Afinal, voltar a ser médico coroa sua jornada. Cinquenta anos depois da escolha que olhares superficiais atribuíam ao pai, fica claro que a oftalmologia não foi herança. Pelo contrário, foi eleição, renovada a cada paciente a quem a visão é devolvida.


