Duas contas sustentaram a abertura da primeira loja: a que a família possuía inteira e a que o banco emprestou para cobrir a outra metade. Foi com esse capital, meio patrimônio e meio dívida, que uma mulher de trinta e cinco anos apostou tudo numa franquia de depilação a laser no bairro de Boa Viagem, na capital pernambucana. Não havia plano B, apenas dois filhos pequenos, um marido no mundo corporativo e uma convicção que ela resume sem rodeios: “Eu tenho tempo para recomeçar e recalcular a rota”. O nome por trás da aposta é Rose Mary Loiola.
Anteriormente, ela havia deixado a carreira suspensa para acompanhar o marido, Sandro, por sete mudanças de cidade: Brasília, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro. Cada mudança ensinou o que nenhum MBA ensina: ler pessoas, decifrar costumes locais e manter a casa em pé enquanto o cenário girava lá fora. Formada em Administração de Empresas pela Universidade Católica de Salvador, ela sabia calcular risco havia tempo. Em 2005, o cálculo era simples: aos trinta e cinco, o erro ainda se corrige; mais adiante, talvez não. Foi essa aritmética, e não o acaso, que a tirou da plateia e a colocou no comando.
As Raízes e a Escolha pelo Propósito
Rose Loiola carrega, desde a infância em Juazeiro e Uauá, no interior da Bahia, um instinto que a formação acadêmica só confirmou depois. Aos dez anos, vendendo biquínis na loja de tecidos da mãe, já sabia o que queria: dinheiro próprio e a liberdade que ele compra. Foi esse instinto, quase três décadas depois, que a levou a escolher a Depyl Action entre as franquias disponíveis. Não bastava rentabilidade. Em contrapartida, ela queria um negócio que cuidasse de quem entrava pela porta, e não apenas vendesse um procedimento.
O Crescimento e a Gestão de Pessoas
Dezenove anos depois, a aposta imprudente virou operação sólida. Da unidade inaugural na Av. Antônio Falcão, o negócio se ramificou em quatro lojas no Recife, hoje responsáveis por cinquenta e duas famílias. O crescimento, contudo, não é o número que a empresária mais valoriza. Com efeito, o destaque vai para a composição da equipe. Noventa por cento das colaboradoras começou ali sem profissão alguma, no primeiro emprego. Onde o mercado vê inexperiência e risco, ela vê matéria-prima. Consequentemente, contratar quem nunca trabalhou virou política deliberada, e formar essas mulheres até a supervisão e a gerência virou rotina interna. Por trás da escolha, reside uma convicção: cuidar de quem cuida, para que o cuidado chegue inteiro ao cliente.
Superação Durante a Crise
A pandemia testou essa engrenagem de outro ângulo. Lojas fechadas, receita zero e contas correntes intactas compunham o cenário. Rose Loiola organizou processos, renegociou com os shoppings, buscou linhas de apoio do governo e manteve as colaboradoras seguras em casa. “Vai passar”, repetia, não por ingenuidade, mas porque confiava no que já havia construído: caixa fortalecido, rotinas claras e disciplina emocional testada havia anos. A crise passou. As quatro lojas seguiram de pé, e a equipe, intacta. Em suma, o que estava em jogo nunca foi apenas o caixa, mas a saúde emocional de quem dependia daquele salário.
Legado e Visão de Futuro
O diferencial que sustenta o negócio hoje é menos comercial do que humano. Ela orienta financeiramente as colaboradoras, celebra quando uma delas compra a primeira casa ou o primeiro carro e promove convenções anuais voltadas à educação. Não gerencia apenas escalas e metas. Antes de mais nada, gerencia histórias de gente que, sem o primeiro emprego que ela ofereceu, teria menos portas abertas. A régua com que mede o próprio sucesso não é a receita do mês. Pelo contrário, é o endereço novo de quem começou recepcionando cliente e hoje assina como gerente.
O olhar para o próximo capítulo segue o mesmo cálculo de sempre. Aos cinquenta e seis anos, com o negócio estável e os filhos, Igor e Carol, já criados, a empresária poderia escolher o sofá da acomodação. Em vez disso, escolhe qualificação constante. Ao lado de Sandro, parceiro de vida há trinta anos e de negócio há dezesseis, segue buscando cursos e mentorias com a mesma fome de quem está começando, e não de quem já chegou. “Muita lenha para queimar”, resume, sobre os planos que recusam qualquer aposentadoria antecipada.
Rose Mary Loiola não apenas recalculou a própria rota naquele ano decisivo. Passados dezenove anos, a dívida que abriu a primeira loja virou quatro operações, cinquenta e duas famílias com salário certo e um número que ela repete com orgulho maior do que qualquer balanço: nove em cada dez colaboradoras chegaram sem profissão e saíram, ou ficaram, com uma carreira. A aposta imprudente, no fim, foi apenas coragem bem calculada.


