Jurídico

Advocacia Humana, Demasiadamente Humana

A prensa. A máquina de escrever. O computador. A internet. A inteligência artificial. Novas tecnologias transformam a forma como nos relacionamos com o mundo, sobretudo no trabalho. A cada vez voltamos a discutir o que se ganha e o que se perde quando uma prática substitui outra.

Como Diretor de Inovação da Câmara de Comércio Brasil-Portugal (PE), conduzi um programa sobre a adoção de novas tecnologias por escritórios de advocacia. Reunimos oito bancas de ponta para discutir o tema: do Brasil, Pinheiro Neto, Mattos Filho, Tozzini Freire e Baptista Luz; de Portugal, Morais Leitão, PLMJ, Vieira de Almeida e Abreu.

Houve um consenso de que a tecnologia está redefinindo a prática jurídica, seja nos escritórios ou nos tribunais. Como dizem: o advogado não será substituído pela IA, mas por outro advogado que saiba usá-la. O que já desencadeou uma verdadeira corrida para aprender ferramentas, escrever prompts e automatizar tarefas.

Um outro consenso, não menos importante, foi de que aspectos humanos de nossa profissão correm o risco de ficar pelo caminho. Vários exemplos foram citados.

Quando o estagiário recorre à IA, em vez de procurar o advogado mais experiente, a autoridade do sênior passa a se apoiar mais na hierarquia, e menos no respeito e na admiração construídos no convívio diário.

Quando as reuniões com os clientes cedem lugar a videochamadas apressadas, em que o advogado se divide entre tarefas e confia na transcrição automática, perde-se a oportunidade de entender as verdadeiras dores do cliente, que muitas vezes só são reveladas por expressões faciais ou comentários feitos de passagem, por exemplo

O próprio processo eletrônico esvaziou fóruns e cartórios — espaços em que advogados se encontravam, conversavam e se olhavam nos olhos — o que talvez explique a perda de civilidade entre colegas que se tratam como inimigos quando estão em lados opostos, em contraste com a cordialidade que caracterizava a profissão.

Advogados de ambos os lados do Atlântico — Brasil e Portugal — concordam a este respeito. As novas tecnologias aumentam a eficiência, é verdade. Só não podem pôr em xeque o que sempre foi a essência da advocacia: formar profissionais, construir confiança e fazer do Direito a diferença.

Com isso em mente, poderemos construir uma advocacia mais eficiente e ainda assim humana, demasiadamente humana.

Por Rodrigo de Abreu Pinto – Advogado. Filósofo. Professor. Presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais. Vice-Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal. Presidente da Comissão de Estudos da Sociedade Anônima de Futebol da OAB-PE. Conselheiro da Fundação Gilberto Freyre. Colunista da Folha de Pernambuco.

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